

Adesivo de propaganda do regime militar utilizado na década de 1970;
Ao centro Edmur Péricles de Camargo, o Gaúcho, ativista de esquerda que atuou em Presidente Epitácio no conflito de terras no Campinal, sendo identificado pela polícia na cidade de Porto Alegre (Nosso Século - Editora Abril);
Morte nas barrancas do Paraná
Publicado na Folha de S. Paulo, segunda-feira, 19 de junho de 1967
A situação no município de Porto Epitácio é grave: há oito dias, pai e filho — o lavrador Paulo Kuraki e seu filho Armando Kuraki, de 17 anos — foram assassinados. Trata-se do primeiro episodio sangrento de uma disputa de terras que envolve, de um lado, um fazendeiro e, de outro, 29 posseiros e arrendatários. A área disputada, 60 alqueires, está situada nas barrancas da margem esquerda do rio Paraná, a 30 quilômetros de Porto Epitácio, viajando-se por água. A área é hoje ocupada por um contingente de policiais da Força Publica, pelas esposas dos posseiros e arrendatários e pelos homens contratados pelo fazendeiro, José Conceição Gonçalves — "Zé Dico". O crime do dia 11, perpetrado de modo frio e calculado, revoltou a população da cidade, que está pelos seus representantes na Câmara Municipal, por comerciantes e pessoas de profissões liberais, auxiliando os posseiros, muitos dos quais seriamente ameaçados e impedidos de regressar aos seus ranchos. Diante da perigosa presença - e da ameaçadora atitude - dos homens contratados pelo fazendeiro, os posseiros enviaram um ofício ao comandante do II Exército e a outras autoridades, solicitando maiores garantias. Os homens de "Zé Dico" não respeitam nem mesmo a presença dos soldados da Força Publica, dizem os posseiros.
Antecedentes
O lavrador Paulo Kuraki, assassinado por José Francisco — que está foragido — morava nas terras denominadas "Poção do Jacó" há três anos, onde mantinha a lavoura, a convite do próprio fazendeiro. Antes o local era reserva florestal; Paulo e mais 28 homens devastaram uma área de dois alqueires, onde cultivavam, entre outras coisas, arroz, banana e cana. Há cerca de seis meses, um sargento conhecido pelo nome de "Guerra" insinuou aos posseiros e arrendatários que a área não pertencia ao fazendeiro. A partir desse momento, os arrendatários só pagavam o preço da renda mediante ameaças, que se amiudaram ultimamente. Segundo o testemunho dos posseiros, os homens de "Zé Dico", sob a falsa alegação de que eram fiscais da Fazenda, invadiam roçados, colhiam os produtos e retiravam partes muitas vezes superiores a 20%, levando os produtos para a fazenda, a titulo de pagamento. Entre os que tiveram seus produtos tomados à força estão: Teófilo Magalhães, Francisco Menezes da Silva, Geronimo Pereira, Geraldo Gonçalves Lima, José Romão da Silva e outros. Do posseiro Manuel Pereira da Silva levaram até objetos como rádios, panelas e outros. Nos últimos dois meses, os jagunços invadiram as casas e levaram até facas de cozinha, afirmando que tinham ordem do dono das terras. Comandados por José Francisco Medeiros, o assassino foragido, os nomes desses homens não são conhecidos. Os posseiros falam em "Antonio dos Óculos", em "Chicão" e Valdomiro. Nos últimos trinta dias, a pressão dos jagunços aumentou; carregavam porcos, frutas e destruíam plantações. Brandiam revolveres e facas, ameaçavam violências e ordenavam a todos que deixassem as terras.
O crime
Paulo Kuraki cultivava suas terras, auxiliado por sua esposa e quatro filhos menores. Sob pressão, resolveu deixar as terras. Começou a mudar-se levando seus pertences para a margem direita do rio, no Mato Grosso, onde mora um amigo seu. No domingo, continuou seu trabalho. Já fizera varias viagens de bote entre uma margem e outra e restava apenas levar seus porcos. Na ultima viagem levaria a família. José Francisco Medeiros levara um de seus porcos. Quando Kuraki reclamou, foi agredido, perto de seu rancho. Seus filhos e a esposa saíram ao terreiro e correram em seu auxilio. O jagunço sacou do revolver e alvejou os membros da familia. Armando Kuraki, com dois tiros, um dos quais no coração, caiu. Uma bala decepou a ponta do dedo mínimo da mão esquerda de D.a Julia Kuraki. E José Carlos, de 14 anos, recebeu um balaço na coxa esquerda. Os outros salvaram-se apenas porque a munição do jagunço acabou. O assassino foi procurar outra arma, mas ao voltar, Paulo e sua família, com exceção do menor (Antonio, de 11 anos, que ficou tomando conta do cadáver do irmão), já estavam no bote, preparando-se para dar a partida no motor. Da barrancada, o criminoso fez pontaria e descarregou a arma; dois projeteis atingiram Paulo Kuraki que ainda pode gritar à esposa que se abaixasse, no fundo do barco. Viveu apenas cinco minutos.
Omissão
Eram 13 horas de domingo. Só às 21 horas a Policia chegou à barranca. O delegado Julio Tamioso Filho, da delegacia de Porto Epitácio justifica o atraso: sua delegacia, instalada num dos maiores municípios do Estado, que é porto fluvial, divisa de Mato Grosso, ponto de passagem de forasteiros de toda a espécie, não tem jipe, nem embarcação, nem soldados e funcionários em numero capaz de permitir um trabalho preventivo e eficiente. O prédio onde funciona a delegacia está a ponto de ruir e já foi interditado pelos engenheiros da Prefeitura local. Um cabo e cinco soldados são obrigados a enfrentar marginais audaciosos e bem equipados que conhecem a região e possuem boas embarcações. Antonio Kuraki diz que, depois de ter assassinado seu pai, José Francisco de Medeiros, foi à sede da fazenda. Logo a seguir - é a versão de Antonio - um avião de propriedade de um dos filhos do fazendeiro levantou vôo. Ele supõe que o criminoso deixou assim as terras. A suposição de Antonio é secundada por outros posseiros. E diante disso, em Porto Epitácio se considera difícil combater jagunços dentro dos limites da Fazenda Bandeirantes.
Sem providências
O inquérito só foi instaurado na terça-feira e logo em seguida pelo delegado regional de Presidente Prudente. De domingo até terça-feira, nenhuma diligencia foi feita. A mulher e filhos do jagunço continuam morando no barraco próximo à casa da vitima. "Chicão", o jagunço que teria dado a segunda arma carregada para Medeiros assassinar Kuraki, continua na fazenda e até quarta-feira não recebera a intimação expedida pelo delegado de Porto Epitácio. Somente quinta-feira depois que o inquérito foi avocado pelo delegado regional é que soldados da Força Publica do destacamento de Presidente Prudente puderam aparecer. Por considerar muito grave a situação, o comandante do destacamento, tenente Augusto da Silva, resolveu enviar sexta-feira um reforço. É uma tropa de 12 homens, estão armados de fuzis, metralhadoras Ina e revolveres. O comandante da tropa não revistou as casas dos jagunços, onde todos dizem haver muitas armas. As autoridades acreditam que "Zé Dico" mantém nos seus 5.480 alqueires de terra mais de 120 homens armados e investigam a respeito. E há outras suspeitas, entre as quais o trafico de mercadorias contrabandeadas.
A expectativa
Um choque entre os policiais e os homens do fazendeiro é esperado por muita gente em Epitácio. No terreno legal, os posseiros, auxiliados pelo advogado Benito Augusto Trezi formalizaram a questão na Justiça. Do processo ficará aclarada a situação e todos concordam em abandonar as terras desde que o fazendeiro prove ser o seu dono. O advogado é auxiliado na tarefa de coordenar a ação pelo posseiro Silvio Papacosta, o único no local que tem conhecimentos para uma tarefa dessa ordem. Os demais continuam fora das terras. Lá ficam apenas suas esposas e filhos que, apesar de destratadas diariamente pelos homens de "Zé Dico" não sofreram maiores violências. Os homens esperam uma solução e não voltam aos seus ranchos, apesar da presença da policia, porque — afirmam — conhecem bem os jagunços, "que têm muita cobertura para praticar suas violências". Silvio Papacosta esteve sábado na delegacia regional de Presidente Prudente, à procura do delegado regional Antonio Canhete, para pedir garantia de vida: um desconhecido lhe dera 24 horas para abandonar sua casa.
Condenação
"Na cidade todos são contra o "Zé Dico" seu moço. Todos condenam seus métodos violentos e todos dizem que estão a favor daqueles trabalhadores das barrancas. Mas eu duvido que sejam mesmo contra ele. Aqui, tem muita gente boa que deve até os fios do cabelo para "Zé Dico" e isso explica a falta de providencias no caso de Paulo Kuraki". O hoteleiro que assim fala não quer ver o nome publicado, mas conta historias ouvidas ou vistas. O fazendeiro aparece então como o potentado inatingível pelas leis de Porto Epitácio. O padre Olívio Reato, querido na cidade, principalmente pelos trabalhadores diz: "O terror é permanente e isso não pode continuar". Vem se avistando com o fazendeiro numa tentativa de contornar a situação, conseguindo a doação ou venda a preço módico dos 60 alqueires disputados. O presidente da Câmara, João Veloso Menezes, não fala de modo diferente, chegando a dizer que mensalmente o rio Paraná leva inúmeros cadáveres ao porto de Epitácio. Afirma que José Conceição Gonçalves é dono de 3.200 alqueires, segundo o IBRA, mas paga impostos de 5.480. Diz que está ao lado dos trabalhadores ameaçados. Sábado ultimo foi à fazenda e conversou longamente com "Zé Dico". O delegado Julio Tamioso Filho diz que não duvida da existência de jagunços a soldo do fazendeiro. "Mas — adverte — a autoridade só pode agir com prova, preto no branco". Depois enumera as dificuldades que encontra em sua missão. O prefeito eng. Natal de Carvalho, tomou conhecimento do assunto, entendeu-se com vereadores, com o padre, com o delegado, mas não chegou a adotar qualquer medida efetiva. Os soldados do destacamento justificam seu trabalho - criticado por muita gente. Dizem que a Justiça de Presidente Epitácio absolve seguidamente autores de crimes bárbaros e que um militar quando é levado a julgamento por um fato, ainda que simples, sempre é condenado.
"Zé Dico"
"Zé Dico" recusa-se a falar. Cercado de seus homens, rústico, envereda facilmente pelo caminho da ofensa e da ameaça velada. Acalmou-se mais tarde e passou a narrar episódios de sua vida. É hoje um homem poderoso, mas começou a trabalhar aos dez anos de idade. Fez tudo na lavoura, amansou centenas de cavalos, atirou o laço em milhares de reses. Orgulha-se disso e crispa-se ao falar nos posseiros. "Moço, eu fui pobre e tenho medo, mas tenho medo mesmo, de voltar a ser miserável. O que eu tenho é meu e para conseguir mais vou até o fim". Refere-se aos posseiros então: "São pescadores que não fizeram nada para possuir a terra que reivindico". Orgulha-se em dizer que não sabe escrever - mal assina o nome, mas que possui muitas fazendas. Como ficou rico. "Comprando quando outros recusavam, vendendo quando muitos esperavam preço. O que eu tenho, faço questão de pegar, de ver e de sentir. É por isso que sou visto diariamente em toda a propriedade. Ser rico não é difícil, o difícil é continuar sendo". Mostra escrituras, faz questão que elas sejam fotografadas, mas sai pela tangente quando ouve uma pergunta sobre a morte de Paulo Kuraki. E os seus homens espalhados na fazenda? "Preciso deles, a fazenda é muito grande".
Compro tudo
"Não gosto de política, mas quando há eleição sempre há um candidato que cai no meu agrado. Para este dou dinheiro e ajudo materialmente. Não peço votos, isso tira a minha autoridade e se tem uma coisa que eu gosto é de ser respeitado. Perder um pouco das minhas terras pode representar para mim a perda de tudo. E isso não vai me acontecer".
Convida o repórter para um café, mostra sua casa - um palácio no mato - mostra o avião e o campo de pouso e chama alguns de seus arrendatários, entre os quais Zenji Yshihara e João Cesar Fernandes. "Estes ganham dinheiro nas minhas terras e eles podem dizer quem sou eu". Ambos cultivam de 50 a 100 alqueires, têm tratores e implementos modernos e suas plantações são altamente produtivas. Afirmam, e exibem documentos, nos quais o fazendeiro é fiador de ambos no Banco do Brasil. Estão satisfeitos com José Conceição Gonçalves e pretendem trabalhar com ele muito tempo. O fazendeiro convida os jornalistas a percorrer suas terras, mas recusa-se a tratar do assunto dos posseiros. Em seu auxilio, vem seu assessor, Darci Magalhães que exibe novas escrituras e não pode conter uma nova explosão de cólera de "Zé Dico" quando o repórter faz alusão aos 150 metros de banhados, que por lei pertencem ao patrimônio da União. Custa a entender o significado do que venha a ser banhados e marinhas; depois afirma: "eu tenho meus próprios métodos e essa gente vai ter que deixar minhas terras". Responde a uma pergunta: "Não vou doar nem vender aquelas terras; ninguém me deu nada". Volta à calma, despede-se do repórter e coloca sua casa "à sua disposição em qualquer época".
A familia sem chefe
Dona Julia Kuraki e seus filhos José Carlos, 14 anos; Antonio, de 11 anos; João, de 7 anos; Luzia, de 3; e Iracema, de ano e meio, não choram. Suas fisionomias refletem uma dor profunda. Não falam, nem pedem vingança. A mãe olha para José Carlos, de 14 anos, ainda ferido e pede que ele assuma a chefia da casa. Os sobreviventes irão trabalhar "para criar os pequenos". Nenhum dos familiares de Paulo Kuraki chora, nenhum fala em vingança. Antonio, que ficou de guarda junto ao cadáver de seu irmão narra, lance por lance, a cena do crime. Escondeu-se numa touceira de bananeira das 13 às 21 horas e não despregou os olhos do corpo. É o único no qual se nota certo ressentimento.
Papai está no céu
Luzia, a garotinha de cabelos loiros, de 3 anos de idade, não recusa o colo do motorista e responde às suas perguntas com naturalidade. "Eu morava na barranca, mas o jagunço matou meu pai e meu irmão e agora nós vamos morar aqui na cidade. Meu pai e meu irmão já estão no céu. Puseram muitas velas para que eles vissem bem o caminho." Tem uma boneca na mão, mas não é sua. O motorista pergunta-lhe se quer ter uma, sua, e a acompanha a uma loja próxima. Vê muitas, algumas grandes, mas diz, com firmeza: "Não gosto de boneca sem roupa", e escolha uma pequena, mas vestida. Volta, feliz e não quer que ninguém toque no seu brinquedo. Ignora tudo que se passa a seu redor.
José Aparecido e Edvaldo Silva - Enviados especiais
A situação no município de Porto Epitácio é grave: há oito dias, pai e filho — o lavrador Paulo Kuraki e seu filho Armando Kuraki, de 17 anos — foram assassinados. Trata-se do primeiro episodio sangrento de uma disputa de terras que envolve, de um lado, um fazendeiro e, de outro, 29 posseiros e arrendatários. A área disputada, 60 alqueires, está situada nas barrancas da margem esquerda do rio Paraná, a 30 quilômetros de Porto Epitácio, viajando-se por água. A área é hoje ocupada por um contingente de policiais da Força Publica, pelas esposas dos posseiros e arrendatários e pelos homens contratados pelo fazendeiro, José Conceição Gonçalves — "Zé Dico". O crime do dia 11, perpetrado de modo frio e calculado, revoltou a população da cidade, que está pelos seus representantes na Câmara Municipal, por comerciantes e pessoas de profissões liberais, auxiliando os posseiros, muitos dos quais seriamente ameaçados e impedidos de regressar aos seus ranchos. Diante da perigosa presença - e da ameaçadora atitude - dos homens contratados pelo fazendeiro, os posseiros enviaram um ofício ao comandante do II Exército e a outras autoridades, solicitando maiores garantias. Os homens de "Zé Dico" não respeitam nem mesmo a presença dos soldados da Força Publica, dizem os posseiros.
Antecedentes
O lavrador Paulo Kuraki, assassinado por José Francisco — que está foragido — morava nas terras denominadas "Poção do Jacó" há três anos, onde mantinha a lavoura, a convite do próprio fazendeiro. Antes o local era reserva florestal; Paulo e mais 28 homens devastaram uma área de dois alqueires, onde cultivavam, entre outras coisas, arroz, banana e cana. Há cerca de seis meses, um sargento conhecido pelo nome de "Guerra" insinuou aos posseiros e arrendatários que a área não pertencia ao fazendeiro. A partir desse momento, os arrendatários só pagavam o preço da renda mediante ameaças, que se amiudaram ultimamente. Segundo o testemunho dos posseiros, os homens de "Zé Dico", sob a falsa alegação de que eram fiscais da Fazenda, invadiam roçados, colhiam os produtos e retiravam partes muitas vezes superiores a 20%, levando os produtos para a fazenda, a titulo de pagamento. Entre os que tiveram seus produtos tomados à força estão: Teófilo Magalhães, Francisco Menezes da Silva, Geronimo Pereira, Geraldo Gonçalves Lima, José Romão da Silva e outros. Do posseiro Manuel Pereira da Silva levaram até objetos como rádios, panelas e outros. Nos últimos dois meses, os jagunços invadiram as casas e levaram até facas de cozinha, afirmando que tinham ordem do dono das terras. Comandados por José Francisco Medeiros, o assassino foragido, os nomes desses homens não são conhecidos. Os posseiros falam em "Antonio dos Óculos", em "Chicão" e Valdomiro. Nos últimos trinta dias, a pressão dos jagunços aumentou; carregavam porcos, frutas e destruíam plantações. Brandiam revolveres e facas, ameaçavam violências e ordenavam a todos que deixassem as terras.
O crime
Paulo Kuraki cultivava suas terras, auxiliado por sua esposa e quatro filhos menores. Sob pressão, resolveu deixar as terras. Começou a mudar-se levando seus pertences para a margem direita do rio, no Mato Grosso, onde mora um amigo seu. No domingo, continuou seu trabalho. Já fizera varias viagens de bote entre uma margem e outra e restava apenas levar seus porcos. Na ultima viagem levaria a família. José Francisco Medeiros levara um de seus porcos. Quando Kuraki reclamou, foi agredido, perto de seu rancho. Seus filhos e a esposa saíram ao terreiro e correram em seu auxilio. O jagunço sacou do revolver e alvejou os membros da familia. Armando Kuraki, com dois tiros, um dos quais no coração, caiu. Uma bala decepou a ponta do dedo mínimo da mão esquerda de D.a Julia Kuraki. E José Carlos, de 14 anos, recebeu um balaço na coxa esquerda. Os outros salvaram-se apenas porque a munição do jagunço acabou. O assassino foi procurar outra arma, mas ao voltar, Paulo e sua família, com exceção do menor (Antonio, de 11 anos, que ficou tomando conta do cadáver do irmão), já estavam no bote, preparando-se para dar a partida no motor. Da barrancada, o criminoso fez pontaria e descarregou a arma; dois projeteis atingiram Paulo Kuraki que ainda pode gritar à esposa que se abaixasse, no fundo do barco. Viveu apenas cinco minutos.
Omissão
Eram 13 horas de domingo. Só às 21 horas a Policia chegou à barranca. O delegado Julio Tamioso Filho, da delegacia de Porto Epitácio justifica o atraso: sua delegacia, instalada num dos maiores municípios do Estado, que é porto fluvial, divisa de Mato Grosso, ponto de passagem de forasteiros de toda a espécie, não tem jipe, nem embarcação, nem soldados e funcionários em numero capaz de permitir um trabalho preventivo e eficiente. O prédio onde funciona a delegacia está a ponto de ruir e já foi interditado pelos engenheiros da Prefeitura local. Um cabo e cinco soldados são obrigados a enfrentar marginais audaciosos e bem equipados que conhecem a região e possuem boas embarcações. Antonio Kuraki diz que, depois de ter assassinado seu pai, José Francisco de Medeiros, foi à sede da fazenda. Logo a seguir - é a versão de Antonio - um avião de propriedade de um dos filhos do fazendeiro levantou vôo. Ele supõe que o criminoso deixou assim as terras. A suposição de Antonio é secundada por outros posseiros. E diante disso, em Porto Epitácio se considera difícil combater jagunços dentro dos limites da Fazenda Bandeirantes.
Sem providências
O inquérito só foi instaurado na terça-feira e logo em seguida pelo delegado regional de Presidente Prudente. De domingo até terça-feira, nenhuma diligencia foi feita. A mulher e filhos do jagunço continuam morando no barraco próximo à casa da vitima. "Chicão", o jagunço que teria dado a segunda arma carregada para Medeiros assassinar Kuraki, continua na fazenda e até quarta-feira não recebera a intimação expedida pelo delegado de Porto Epitácio. Somente quinta-feira depois que o inquérito foi avocado pelo delegado regional é que soldados da Força Publica do destacamento de Presidente Prudente puderam aparecer. Por considerar muito grave a situação, o comandante do destacamento, tenente Augusto da Silva, resolveu enviar sexta-feira um reforço. É uma tropa de 12 homens, estão armados de fuzis, metralhadoras Ina e revolveres. O comandante da tropa não revistou as casas dos jagunços, onde todos dizem haver muitas armas. As autoridades acreditam que "Zé Dico" mantém nos seus 5.480 alqueires de terra mais de 120 homens armados e investigam a respeito. E há outras suspeitas, entre as quais o trafico de mercadorias contrabandeadas.
A expectativa
Um choque entre os policiais e os homens do fazendeiro é esperado por muita gente em Epitácio. No terreno legal, os posseiros, auxiliados pelo advogado Benito Augusto Trezi formalizaram a questão na Justiça. Do processo ficará aclarada a situação e todos concordam em abandonar as terras desde que o fazendeiro prove ser o seu dono. O advogado é auxiliado na tarefa de coordenar a ação pelo posseiro Silvio Papacosta, o único no local que tem conhecimentos para uma tarefa dessa ordem. Os demais continuam fora das terras. Lá ficam apenas suas esposas e filhos que, apesar de destratadas diariamente pelos homens de "Zé Dico" não sofreram maiores violências. Os homens esperam uma solução e não voltam aos seus ranchos, apesar da presença da policia, porque — afirmam — conhecem bem os jagunços, "que têm muita cobertura para praticar suas violências". Silvio Papacosta esteve sábado na delegacia regional de Presidente Prudente, à procura do delegado regional Antonio Canhete, para pedir garantia de vida: um desconhecido lhe dera 24 horas para abandonar sua casa.
Condenação
"Na cidade todos são contra o "Zé Dico" seu moço. Todos condenam seus métodos violentos e todos dizem que estão a favor daqueles trabalhadores das barrancas. Mas eu duvido que sejam mesmo contra ele. Aqui, tem muita gente boa que deve até os fios do cabelo para "Zé Dico" e isso explica a falta de providencias no caso de Paulo Kuraki". O hoteleiro que assim fala não quer ver o nome publicado, mas conta historias ouvidas ou vistas. O fazendeiro aparece então como o potentado inatingível pelas leis de Porto Epitácio. O padre Olívio Reato, querido na cidade, principalmente pelos trabalhadores diz: "O terror é permanente e isso não pode continuar". Vem se avistando com o fazendeiro numa tentativa de contornar a situação, conseguindo a doação ou venda a preço módico dos 60 alqueires disputados. O presidente da Câmara, João Veloso Menezes, não fala de modo diferente, chegando a dizer que mensalmente o rio Paraná leva inúmeros cadáveres ao porto de Epitácio. Afirma que José Conceição Gonçalves é dono de 3.200 alqueires, segundo o IBRA, mas paga impostos de 5.480. Diz que está ao lado dos trabalhadores ameaçados. Sábado ultimo foi à fazenda e conversou longamente com "Zé Dico". O delegado Julio Tamioso Filho diz que não duvida da existência de jagunços a soldo do fazendeiro. "Mas — adverte — a autoridade só pode agir com prova, preto no branco". Depois enumera as dificuldades que encontra em sua missão. O prefeito eng. Natal de Carvalho, tomou conhecimento do assunto, entendeu-se com vereadores, com o padre, com o delegado, mas não chegou a adotar qualquer medida efetiva. Os soldados do destacamento justificam seu trabalho - criticado por muita gente. Dizem que a Justiça de Presidente Epitácio absolve seguidamente autores de crimes bárbaros e que um militar quando é levado a julgamento por um fato, ainda que simples, sempre é condenado.
"Zé Dico"
"Zé Dico" recusa-se a falar. Cercado de seus homens, rústico, envereda facilmente pelo caminho da ofensa e da ameaça velada. Acalmou-se mais tarde e passou a narrar episódios de sua vida. É hoje um homem poderoso, mas começou a trabalhar aos dez anos de idade. Fez tudo na lavoura, amansou centenas de cavalos, atirou o laço em milhares de reses. Orgulha-se disso e crispa-se ao falar nos posseiros. "Moço, eu fui pobre e tenho medo, mas tenho medo mesmo, de voltar a ser miserável. O que eu tenho é meu e para conseguir mais vou até o fim". Refere-se aos posseiros então: "São pescadores que não fizeram nada para possuir a terra que reivindico". Orgulha-se em dizer que não sabe escrever - mal assina o nome, mas que possui muitas fazendas. Como ficou rico. "Comprando quando outros recusavam, vendendo quando muitos esperavam preço. O que eu tenho, faço questão de pegar, de ver e de sentir. É por isso que sou visto diariamente em toda a propriedade. Ser rico não é difícil, o difícil é continuar sendo". Mostra escrituras, faz questão que elas sejam fotografadas, mas sai pela tangente quando ouve uma pergunta sobre a morte de Paulo Kuraki. E os seus homens espalhados na fazenda? "Preciso deles, a fazenda é muito grande".
Compro tudo
"Não gosto de política, mas quando há eleição sempre há um candidato que cai no meu agrado. Para este dou dinheiro e ajudo materialmente. Não peço votos, isso tira a minha autoridade e se tem uma coisa que eu gosto é de ser respeitado. Perder um pouco das minhas terras pode representar para mim a perda de tudo. E isso não vai me acontecer".
Convida o repórter para um café, mostra sua casa - um palácio no mato - mostra o avião e o campo de pouso e chama alguns de seus arrendatários, entre os quais Zenji Yshihara e João Cesar Fernandes. "Estes ganham dinheiro nas minhas terras e eles podem dizer quem sou eu". Ambos cultivam de 50 a 100 alqueires, têm tratores e implementos modernos e suas plantações são altamente produtivas. Afirmam, e exibem documentos, nos quais o fazendeiro é fiador de ambos no Banco do Brasil. Estão satisfeitos com José Conceição Gonçalves e pretendem trabalhar com ele muito tempo. O fazendeiro convida os jornalistas a percorrer suas terras, mas recusa-se a tratar do assunto dos posseiros. Em seu auxilio, vem seu assessor, Darci Magalhães que exibe novas escrituras e não pode conter uma nova explosão de cólera de "Zé Dico" quando o repórter faz alusão aos 150 metros de banhados, que por lei pertencem ao patrimônio da União. Custa a entender o significado do que venha a ser banhados e marinhas; depois afirma: "eu tenho meus próprios métodos e essa gente vai ter que deixar minhas terras". Responde a uma pergunta: "Não vou doar nem vender aquelas terras; ninguém me deu nada". Volta à calma, despede-se do repórter e coloca sua casa "à sua disposição em qualquer época".
A familia sem chefe
Dona Julia Kuraki e seus filhos José Carlos, 14 anos; Antonio, de 11 anos; João, de 7 anos; Luzia, de 3; e Iracema, de ano e meio, não choram. Suas fisionomias refletem uma dor profunda. Não falam, nem pedem vingança. A mãe olha para José Carlos, de 14 anos, ainda ferido e pede que ele assuma a chefia da casa. Os sobreviventes irão trabalhar "para criar os pequenos". Nenhum dos familiares de Paulo Kuraki chora, nenhum fala em vingança. Antonio, que ficou de guarda junto ao cadáver de seu irmão narra, lance por lance, a cena do crime. Escondeu-se numa touceira de bananeira das 13 às 21 horas e não despregou os olhos do corpo. É o único no qual se nota certo ressentimento.
Papai está no céu
Luzia, a garotinha de cabelos loiros, de 3 anos de idade, não recusa o colo do motorista e responde às suas perguntas com naturalidade. "Eu morava na barranca, mas o jagunço matou meu pai e meu irmão e agora nós vamos morar aqui na cidade. Meu pai e meu irmão já estão no céu. Puseram muitas velas para que eles vissem bem o caminho." Tem uma boneca na mão, mas não é sua. O motorista pergunta-lhe se quer ter uma, sua, e a acompanha a uma loja próxima. Vê muitas, algumas grandes, mas diz, com firmeza: "Não gosto de boneca sem roupa", e escolha uma pequena, mas vestida. Volta, feliz e não quer que ninguém toque no seu brinquedo. Ignora tudo que se passa a seu redor.
José Aparecido e Edvaldo Silva - Enviados especiais
No Pontal do Paranapanema
Desde que Mário de Andrade escreveu sua famosa lamentação a respeito de morar na rua Lopes Chaves sem sequer saber quem foi Lopes Chaves, o Brasil já devia ter tomando jeito e abandonado essa tendência a ir substituindo antigos, espontâneos nomes de cidades e de logradouros por nomes de pessoas, geralmente de ilustres desconhecidos , como Lopes Chaves. Imagino eu que, como cada um de nós tem suas predileções, e se dispões a abris exceções a praga continua.
Mas creio que pelo menos uma exceção todos podemos aplaudi. Que o maior município do estado de São Paulo se chame Teodoro Sampaio, acho correto. O grande geógrafo e historiador baiano não só deixou O tupi na geografia nacional com fez, quando trabalhava com Orville A. Derby na Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, o levantamento exatamente desse zona do Paranapanema, em 1886.
O Pontal de Paranapanema é o vértice, a ponta aguda – no mapa parece um bico de ave – formada pelo encontro do rio Paranapanema com o rio Paraná. O Paranapanema separa São Paulo do estado de Paraná, enquanto o rio Paraná o separa do estado de Mato Grosso do Sul. Apelemos para a erudição indianista de Teodora Sampaio para observar que Paraná quer dizer “Para-ná, o que é semelhante ao mar; denominação dada aos grandes rios” e Paranapanema é “ Paraná-panema, o caudal imprestável impraticável” Tal como, vejam só Ipanema “ypanema, a água ruim, imprestável; o rio sem peixe ou ruim para pesca.O trabalho realizado por Teodoro Sampaio no Pontal foi o da exploração dos rios Itapetininga e Paranapanema. O governo da província de São Paulo queria colocar sua rede ferroviária em contato com a navegação já existente no rio Paraná.
Em 1889 a Revista do Instituto Geográfico Geológico publicou o estudo de Teodoro e, na introdução, o autor dizia: “Não me limitei unicamente a colher dados sobre as condições de navegabilidade do rio, consegui também reunir informações de algum valor sobre a capacidade da região dentro do vale, o seu povoamento, a ocupação do solo, o grau de adiantamento e a força do comércio que ai se desenvolve, as vias de comunicação e o problema das ligações dos nossos centros administrativos com as remotas terras do vale do Paraguai; consegui igualmente obter esclarecimentos fidedignos acerca de várias tribos de índios que vagueiam naquelas paragens, tento até organizado um vocabulário de perto de 600 palavras e frases da língua caiuá, a mais geralmente falada dentro do vale; mas como aqui se achassem deslocadas, ficou(...) determinada a sua separação, podendo os mesmos vir à publicidade em trabalhos posteriores que com eles tenham maior afinidade.” Não sei quando e se terão sido publicados os capítulos mais sociológicos do levantamento que fez Teodoro do vale do Paranapanema.
Do trecho citado a gente retém com algum espanto a menção às “várias tribos de índios que vagueiam naquelas paragens” e pergunta que fim terá a língua caiuá. As tribos que hoje vagueiam no vale do Paranapanema são brasileiros mesmo, em busca de terra onde arribar, como viviam os caiuá de Teodoro.
O quase sabe, hoje, de acordo com levantamentos históricos, é que no vale do Paranapanema, precisamente na área do Reservatório de Taquaruçu, encontram-se dois sítios de Santo Inácio Menor e Nossa Senhora de Loreto, que perduraram até 1631. Depois quase toda a região regrediu a um estado de “sertão”, de terra desconhecida, até sua atabalhoada ocupação, no século XIX, pela investida do café. Teve início, nessa época, uma falsificação de títulos de propriedades que até hoje não cessou.A lei de Terras de 1850 estabelecia que as aquisições de terras devolutas só poderiam ser efetuadas por títulos de compra. Ou pela via de legitimação das “posses mansas e pacíficas”, marcadas pela efetiva ocupação. Mas ninguém, entre os grileiros, pagava nada ao estado nem queria saber de ocupações mansas e pacíficas. O estado por sua vez não tinha meios de fiscalizar as ocupações e queria,além disso vender a terra, sempre que possível. Foi a grilagem infrene, assim descrita por Tidei Lima; “Arranjavam-se papéis antigos, selos com a efígie de D. Pedro II e pediam que assinassem a rogo, por exemplo, de José Teodoro de Souza e sua Muller. Chegavam a pôr o papel para amarelar com a fumaça em cima do fogão. Para simularem longo uso da terra, ficavam pés de café já bem velhos, construíam casa mal-acabadas, que dessem a impressão de antiguidade, com móveis sujos e estragados. Arrumavam testemunhas `profissionais`, antigos moradores que atestavam ter o interessado comprado aterra do legítimo proprietário e se apossado dela há muitos anos. Havia também conflitos entre grileiros que disputavam, às vezes, a mesma área. Na disputa judicial valia tudo: a compra do juiz, dos agrimensores e dos funcionários de cartórios. Em desespero de causa, recorriam alguns até ao assassinato.” Ou na descrição lírica, otimista, de Monteiro Lobato, ao retratar o grileiro em A onda verde: “Opera as maiores falcatruas; falsifica firmas, papéis, selos, falsifica rios e montanhas; falsifica árvores e marcos; falsifica juízes e cartórios; falsifica o fiel da balança de Têmis, falsificação céu, a terra e as águas; falsifica Deus e o Diabo. Mas vence. Divididas as glebas em lotas, vendem-nos os grileiros à legião de colonos que os seguem como urubus – pelos cheiro da carniça. Cinco , dez anos depois, a flor do café branqueia a zona e a incorpora ao patrimônio da riqueza nacional.
Sombras do drama espanhol
No entanto, toda essa cultivada extensão da Lagoa São Paulo fazia parte, anos atrás, de um sombrio latifúndio. A casa-grande que a cooperativa ocupa hoje com seus escritórios era sede da Fazenda Bandeirante, onde imperava o finado Zé Dico, ainda afamado em toda a região. Como sempre acontece com essas fortes personalidades do mandonismo rural, Zé Dico deixou um perceptível rastro de ódio e de uma espécie de invencível admiração.
Como se também o mal, exercido com largueza, merecesse alguma escura medalha. Zé Dico deixou nome de patrão pavoroso, revólver na cinta, rebenque na mão. Quanto a ser inimigo de Zé Dico, nas terras que ele não sabia e ninguém ousava dizer onde acabavam, era o mesmo que um homem assinar a própria sentença de morte. Gente dos arredores da fazenda ainda conta casos do fazendeiro, mas, por via das dúvidas, dando um certo ar de naturalidade aos horrores, e olhando para os lados, como se alguém invisível pudesse estar escutando. Segundo um verdadeiro folclore que se criou na região, o meio favorito, quase perfeito, que tinha Zé Dico de se livrar dos desafetos que liquidava era enfiar o corpo dentro de um boi morto e limpo por dentro , o qual era costurado com seu novo recheio.
O boi féretro, lançado ao rio se transformava de pronto numa rês morta, igual a tantas outras que a enchente carrega e que descem a corrente, alimentando os peixes. Zé Dico, ao ser assassinado em 1970, não dormia mais no seu amplo quarto da casa-grande. À noite, esgueirava-se em segredo para uma casa anexa, onde dormia cercado de capangas. Acordado, ele sabia que os inimigos não teriam coragem de atacar. Mas dormia pesado e não custava, durante o sono, despistar. Mesmo assim, em 1970 acabaram com ele Levou, ao que se conta, cinqüenta tiros. Tantos tiros que foi impossível descobrir o autor do crime. Como em Fuenteovejuna, a peça de Lope de Veja. A aldeia inteira de Fuenteovejuna assume a culpa do assassinato do comendador e cada vez que, durante o inquérito, se pergunta a alguém do povo quem matou, a resposta não varia: “ Foi Fuenteovejuna.”
Em Lagoa São Paulo o máximo que dizem as pessoas que já andavam por lá na época do crime é que Zé Dico morreu de mutirão.
Antonio Callado - Entre o Deus e Vasilha - Editora Nova Fronteira
Antonio Callado - Entre o Deus e Vasilha - Editora Nova Fronteira
A esquerda pega em armas
O governo Médici assistiu ao apogeu e ao declínio da guerrilha urbana, que ficou marcada por duas imagens: a dos sequestros de diplomatas estrangeiros e a dos assaltos a bancos. Foram ações espetaculares, de caráter altamente teatral, que causavam bastante impacto. Nesse particular o terrorismo atingiu o seu objetivo. O primeiro sequestro, ocorrido em 4 de setembro de 1969, envolvia o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick e foi empreendido por um conjunto de organizações guerrilheiras, que exigiam, pela vida do diplomata, a soltura de quinze presos políticos, que ainda nesse mês, foram postos num avião e desembarcaram no México, na condição de banidos. O sucesso dessa operação transformouse em modelo para as ações subsequentes (H.Holleben, da Alemanha Ocidenteal, com a soltura de 40 presos; e Giovani E. Bucker, da Suiça, 70 presos) .
A 11 de março era sequestrado o embaixador japonês Nobuo Okuchi, em São Paulo, por militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). (...) A partir do momento em que o sequestro e as exigências do terroristas eram anunciados, todo o aparato policial-militar do Governo ficava de prontidão. As autoridades esperavam conseguir encontar o sequestrado e prender os sequestradores, no intervalo de tempo entre o anúncio e o embarque para o exterior. Embora ganhassem alguns dias nas negociações, nunca obtinham o tempo necessário para localizar os terroristas. Além disso, cada sequestro gerava um forte clima de tensão nas esferas do Governo,sobretudo nas Forças Armadas, que intensificavam, por todos os meios, a caça aos terroristas.
Mas a ação mais frequente foram os assaltos a bancos. Ao contrário dos seuquestros, esse tipo de ação atingia a população diretamente, interferindo em seu cotidiano e deixando-a sobressaltada. Essefato, a princípio, fez os líderes da luta armada hesitarem quanto a tal forma de ação, mas os guerrilheiros urbanos precisavam de dinheiro para manter-se na ilegalidade (clandestinidade), financiar os . aparelhos. e ampliar suas atividades. A organização VAR-Palmares levou a cabo a ação considerada a mais espetacular da guerrilha urbana: o roubo do cofre de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo. Segundo Alfredo Sirkis, então militante desse grupo, . a dica do tesouro escondido num palacete de Santa Teresa, fora dada por Gustavo, sobrinho da dona do cofre, Ana Benchimol, amante de Adhemar.. Para a VAR-Palmares, o sucesso da ação era providencial, pois tratava-se de .expropriação. de dois milhões e quinhentos mil dólares suplantando todos os grandes assaltos do século, inclusive o do trem pagador Glasgow-Londres, por Ronald Bigs.
Nosso Século - Abril Cultural, 1980.
Terrorismo Nunca Mais
Feichas Martins – Agência Brasileira de Notícias
Recebo do Ternuma - "Terrorismo Nunca Mais" - a relação de vítimas de novembro dos que, na visão desse grupo, queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil, nos anos 60. Foi uma guerra, com mortos de ambos os lados, razão pela qual publicarei também o que vier do lado dos militares:
12/11/64 - Paulo Macena (Vigia - RJ). Morto durante a explosão de uma bomba colocada no Cine Bruni, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Também ficaram feridas seis pessoas.
24/11/67 - José Gonçalves Conceição (Zé Dico, fazendeiro - SP). Morto por Edmur Péricles de Camargo, integrante da Ala Marighela, durante a invasão da fazenda Bandeirante, em Presidente Epitácio. Zé Dico foi trancado num quarto, torturado e finalmente morto com vários tiros. O filho do fazendeiro que tentara socorrer o pai, foi baleado por Edmur com dois tiros nas costas.
07/11/68 - Estanislau Ignácio Correia (civil - SP). Morto pelos terroristas Ioshitame Fugimore, Oswaldo Antônio dos Santos e Pedro Lobo Oliveira, todos integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária(VPR), quando roubavam seu automóvel na esquina das ruas Carlos Norberto Souza Aranha e Jaime Fonseca Rodrigues, em São Paulo.
04/11/69 - Estela Borges Morato (Investigadora do DOPS - SP). Morta a tiros quando participava da operação em que morreu o terrorista Carlos Marighela.
04/11/69 - Friederich Rohmann (Protético - SP). Morto durante a operação que resultou na morte do terrorista Carlos Marighela.
07/11/69 - Mauro Celso Rodrigues (Soldado PM - MA). Morto em uma emboscada, durante a luta travada entre lavradores de terra, incitados por militantes da Ação Popular (AP).
14/11/69 - Orlando Girolo (Bancário - SP). Morto por terroristas durante assalto ao Banco Brasileiro de Descontos(Bradesco).
17/11/69 - Joel Nunes (Sub-Tenente PM - RJ). Morto a tiros por Avelino Bioni Capitani, durante um assalto da Organização Terrorista PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) ao Banco Sotto Mayor, na Praça do Carmo, Rio de Janeiro.
10/11/70 - José Marques do Nascimento (Civil - SP). Morto por terroristas em confronto com policiais.
10/11/70 - Garibaldo de Queiroz (Soldado PM - SP) e José Aleixo Nunes (Soldado PM - SP). Mortos em confronto com terroristas que faziam uma panfletagem armada na Vila Prudente, São Paulo.
01/11/71 - Nelson Martinez Ponce (Cabo PM - SP). Metralhado durante um atentado, praticado por cinco terroristas, contra um ônibus da Empresa de Transportes Urbano S A, em Vila Brasilândia, São Paulo.
10/11/71 - João Campos (Cabo PM - SP). Morto na estrada de Pindamonhagaba, ao interceptar um carro que conduzia terroristas armados.
27/11/71 - Eduardo Timóteo Filho (Soldado PM - RJ). Morto por terroristas, durante assalto contra as Lojas Gaio Marti.
OPERAÇÃO CONDOR
Ação na Tríplice Fronteira até hoje não foi esclarecida
Grupo teria sido capturado com ajuda da Argentina e fuzilado em Foz
Vannildo Mendes, BRASÍLIA
A eventual abertura de investigação sobre a Operação Condor pode abrir espaço para que seja desvendado um dos episódios nebulosos da ditadura. Trata-se da chacina de oito guerrilheiros de esquerda, comandados pelo sargento Onofre Pinto, capturados em julho de 1974 na região da Tríplice Fronteira, no Sul, com a colaboração do aparelho repressor argentino.
O grupo era formado por sete brasileiros e um argentino, Enrique Ruggia. Eles teriam sido atraídos da Argentina, onde estavam refugiados, até a divisa com o Brasil. A partir de informações da inteligência argentina sobre sua rota, o grupo teria sido capturado depois de entrar no País, e fuzilado numa área de mata em Foz do Iguaçu.
As Forças Armadas do Brasil e da Argentina sempre negaram o episódio. Mas o Arquivo Nacional de la Memória, do governo argentino, tem guardadas as fichas de Ruggia e dos brasileiros Edmur Péricles Camargo, José Lavecchia, Gilberto Faria Lima e os irmãos Joel e Daniel de Carvalho. O oitavo militante se chamaria Victor - o nome pode ser fictício - e sua ficha não foi levantada. Faria Lima era dirigente da VPR, assim como Onofre. As fichas não esclarecem se o sargento morreu com os demais ou mais tarde.
No Arquivo de la Memória estão as fichas de outros sete militantes brasileiros capturados por agentes da repressão na década de 70 em Buenos Aires e entregues ao Brasil. Esses sete e os capturados na fronteira são dados como desaparecidos.
O material foi disponibilizado ao Brasil no início do governo Lula, como parte de um pacto firmado pelos países do Cone Sul, todos democratizados. Entre as fichas mandadas ao Brasil pela Argentina está a de um argentino preso com a colaboração de órgãos de repressão brasileiros. As fichas contêm referências precisas sobre a identidade dos desaparecidos e as circunstâncias de sua captura. O objetivo do acordo entre os países do Cone Sul é esclarecer os crimes políticos dos anos de chumbo, como os da Operação Condor, e ajudar na localização de desaparecidos. Está prevista a troca de informações entre governos e ONGs de direitos humanos dos países da região. As informações servirão de subsídio para processos de indenização aos familiares das vítimas.
Para ONGs de direitos humanos brasileiras, as fichas do Arquivo de la Memória provam o envolvimento de militares da Argentina e do Brasil com a chamada "desaparición forzada" de militantes de esquerda. Pelo menos três argentinos foram capturados no Brasil e entregues a autoridades de seu país.
As fichas do Arquivo de la Memória incluem entre os entregues ao Brasil pela repressão argentina o professor de educação física Sérgio Fernando Tula Silverg, seqüestrado em 8 de abril de 1976 em sua casa, em Buenos Aires. Desde então, é dado como desaparecido. Seu pai teve informações de que ele teria sido levado para o centro de detenção de Campo de Mayo.
Única mulher entre as fichas enviadas ao Brasil, a professora Maria Regina Marcondes Pinto, mesmo sem militância confirmada, foi seqüestrada em 10 de abril de 1976 por agentes da repressão em sua casa, em Buenos Aires. Outro brasileiro listado é o estudante Luiz Renato do Lago Faria, também sem militância confirmada. Ele foi seqüestrado em 7 de fevereiro de 1980, em circunstâncias ainda não esclarecidas.
Estadão - segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007 Versão Impressa
Grupo teria sido capturado com ajuda da Argentina e fuzilado em Foz
Vannildo Mendes, BRASÍLIA
A eventual abertura de investigação sobre a Operação Condor pode abrir espaço para que seja desvendado um dos episódios nebulosos da ditadura. Trata-se da chacina de oito guerrilheiros de esquerda, comandados pelo sargento Onofre Pinto, capturados em julho de 1974 na região da Tríplice Fronteira, no Sul, com a colaboração do aparelho repressor argentino.
O grupo era formado por sete brasileiros e um argentino, Enrique Ruggia. Eles teriam sido atraídos da Argentina, onde estavam refugiados, até a divisa com o Brasil. A partir de informações da inteligência argentina sobre sua rota, o grupo teria sido capturado depois de entrar no País, e fuzilado numa área de mata em Foz do Iguaçu.
As Forças Armadas do Brasil e da Argentina sempre negaram o episódio. Mas o Arquivo Nacional de la Memória, do governo argentino, tem guardadas as fichas de Ruggia e dos brasileiros Edmur Péricles Camargo, José Lavecchia, Gilberto Faria Lima e os irmãos Joel e Daniel de Carvalho. O oitavo militante se chamaria Victor - o nome pode ser fictício - e sua ficha não foi levantada. Faria Lima era dirigente da VPR, assim como Onofre. As fichas não esclarecem se o sargento morreu com os demais ou mais tarde.
No Arquivo de la Memória estão as fichas de outros sete militantes brasileiros capturados por agentes da repressão na década de 70 em Buenos Aires e entregues ao Brasil. Esses sete e os capturados na fronteira são dados como desaparecidos.
O material foi disponibilizado ao Brasil no início do governo Lula, como parte de um pacto firmado pelos países do Cone Sul, todos democratizados. Entre as fichas mandadas ao Brasil pela Argentina está a de um argentino preso com a colaboração de órgãos de repressão brasileiros. As fichas contêm referências precisas sobre a identidade dos desaparecidos e as circunstâncias de sua captura. O objetivo do acordo entre os países do Cone Sul é esclarecer os crimes políticos dos anos de chumbo, como os da Operação Condor, e ajudar na localização de desaparecidos. Está prevista a troca de informações entre governos e ONGs de direitos humanos dos países da região. As informações servirão de subsídio para processos de indenização aos familiares das vítimas.
Para ONGs de direitos humanos brasileiras, as fichas do Arquivo de la Memória provam o envolvimento de militares da Argentina e do Brasil com a chamada "desaparición forzada" de militantes de esquerda. Pelo menos três argentinos foram capturados no Brasil e entregues a autoridades de seu país.
As fichas do Arquivo de la Memória incluem entre os entregues ao Brasil pela repressão argentina o professor de educação física Sérgio Fernando Tula Silverg, seqüestrado em 8 de abril de 1976 em sua casa, em Buenos Aires. Desde então, é dado como desaparecido. Seu pai teve informações de que ele teria sido levado para o centro de detenção de Campo de Mayo.
Única mulher entre as fichas enviadas ao Brasil, a professora Maria Regina Marcondes Pinto, mesmo sem militância confirmada, foi seqüestrada em 10 de abril de 1976 por agentes da repressão em sua casa, em Buenos Aires. Outro brasileiro listado é o estudante Luiz Renato do Lago Faria, também sem militância confirmada. Ele foi seqüestrado em 7 de fevereiro de 1980, em circunstâncias ainda não esclarecidas.
Estadão - segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007 Versão Impressa
México D.F. Domingo 1 de junio de 2003
Campesinos sin tierra anunciaron tomas de inmuebles
Latifundistas de Brasil se protegen con armas de posibles invasiones
AFP
Sao Paulo, 31 de mayo. Terratenientes en el estado de Sao Paulo han montado guardias armadas para proteger sus propiedades ante el establecimiento, en una carretera vecinal de la localidad de Presidente Epitacio, de un enorme campamento del Movimiento de los Sin Tierra (MST), que anunció una serie de invasiones de latifundios improductivos.
"Nuestro objetivo es llamar la atención de la sociedad sobre la necesidad de que se ponga fin a esos latifundios", declaró el dirigente regional del gremio campesino Josi Luiz Patrola. Agregó que el MST prepara invasiones de propiedades en unos 23 estados del país, y que incluso ya se han producido tomas en siete estados.
No obstante, afirmó que las invasiones "no son contra el gobierno de Luiz Inacio Lula da Silva, a quien vemos como un aliado en la lucha por la reforma agraria", en alusión al reclamo del presidente, que la semana pasada declaró que no imagina que en un país del tamaño de Brasil, con la cantidad de tierra que tiene, se tengan que dar ocupaciones con violencia.
Lo cierto es que el enorme campamento del MST, que ocupa unos tres kilómetros de largo, comenzó a ampliarse aún más con la llegada de nuevas familias, para sumar unas 600, que de inmediato comenzaron a levantar precarias casas de madera, cañas de bambú y lonas.
Ante las denuncias de los campesinos del MST de que los latifundistas se protegen del modo citado, la alcaldía de Presidente Epitacio dijo estar preocupada, pero agregó que no tiene informes de que haya "estancieros con hombres armados".
Pero Osvaldo Saraiva Marques, terrateniente de la zona, confirmó que los propietarios poseen guardias armadas privadas para protegerse ante eventuales invasiones, al considerar que tienen derecho a protegerse.
El ganadero dijo ser contrario al simple gesto de darle armas a los peones que no están preparados para las labores de vigilancia, ya que eso es condenable y puede provocar mayor violencia. En cambio, añadió, la ley permite que los hacendados protejan sus predios, y que por eso han contratado empresas de seguridad.
Saraiva Marques negó que en lo personal tuviera tales milicias, al asegurar que le basta protegerse con el Poder Judicial, pues, dijo, si sus tierras son invadidas confía en que la justicia lo defienda.
La agencia Afp reportó que recorriendo las rutas vecinales de la región se podía ver a las patrullas de tres y cuatro hombres a caballo vigilando las cercas de alambre de las estancias.
El alcalde de Presidente Epitacio, Adhemar Dassie, aunque negó la presencia de milicias de los latifundistas, dijo estar preocupado y que ha pedido ayuda al gobernador de Sao Paulo, Geraldo Alckmin, ya que la localidad tiene 40 mil habitantes y teme que el MST reúna a unas 5 mil familias en su campamento, con lo cual sumarían unas 20 mil personas, por lo que estimó que el problema queda fuera de sus manos.
En las últimas semanas el MST ha estado presionando para que la reforma agraria se ponga en marcha y se haga el reparto de tierras, levantando campamentos, efectuando marchas y tomando algunas propiedades estatales y una hacienda.
LA JORNADA
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