A foto mostra a jovem professora Maria Angélica de Oliveira cumprimentando o Presidente Médici, não sabemos, se em Brasília ou Presidente Prudente. Maria Angélica foi vereadora eleita pelo MDB em 1972, na chapa da Minhoca, que tinha como candidatos Roberto Schneidwind e Élio Gomes. Os derrotados foram Velozo e Vivaldo, da ARENA, chamada na época de “A Panela”. O regime militar, cujo partido era a ARENA, nem sempre vencia os pleitos municipais.
O início da década de 1970 foi talvez uma das mais curiosas da nossa história recente. A América Latina vivia a febre dos regimes militares, implantados para combater a ameaça comunista iniciada pela Revolução Cubana. Chê Guevara havia tombado na Bolívia, mas por todos lados surgiam grupos armados desafiando os antigos e poderosos interesses políticos. Nos próximos anos as ditaduras se tornariam cada vez mais ferozes: no Chile, no Uruguai, na Argentina...
No Brasil estávamos sob o comando do General Emílio Garrastazu Médici, o terceiro e mais “linha dura” dos governos militares. Era o tempo da Seleção Canarinho, tricampeã no México, e das vitórias de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1. Os brasileiros analfabetos estudavam no Mobral e os jovens mais humildes admiravam as canções ufanistas de Dom e Ravel. Mesmo assim, Médici conduzia o país com a rédea curta. A censura era de um rigor implacável em todos os setores e os informantes se alastravam como pragas em todos os cantos do país.
Em Epitácio havia um antigo foco de conflitos de terras entre posseiros e camponeses que atraiu a atenção tanto das chamadas forças de segurança quanto dos grupos guerrilheiros que se opunham ao regime. O famoso caso dos Kuraki no Campinal em 1967 (ver o texto na postagem Anos de Chumbo em Epitácio) , atraiu a grande imprensa e a Folha de São Paulo mandou como enviado especial o já experiente repórter José Aparecido para cobrir os acontecimentos. A matéria teve grande repercussão e se tornou peça histórica ainda hoje exibida nos arquivos do jornal. José Aparecido ficava mais famoso e também mais epitaciano do que nunca. Só sossegou o facho quando – alguns anos depois da aposentaria em São Paulo - se mudou definitivamente para as barrancas do rio Paraná. Ainda assim, continuou inquieto , até que assumisse já no final dos anos 1990 a direção do jornal A Fronteira e depois fundasse com outros inquietos o pequeno e então atrevido Correio do Porto. O caso Kurac teria outros desdobramentos de violência, quando o guerrilheiro Gaúcho (Edmur Péricles Camargo) veio ao Campinal para "acertar as contas" com o fazendeiro Zé Dico, na época apontado como principal inimigo dos agricultores assassinados.
Apesar do medo e da incerteza, a vida corria simples e conformada nas famílias epitacianas. O cotidiano, os desfiles cívicos, a vida política e as eleições municipais, tudo tinha um clima de apreensão e dúvida sobre o que era certo ou errado. Na dúvida, o melhor era ficar em silêncio. Como dizia o Tião, da Papelaria Silva, a escolha certa nessa horas não era nem o lado esquerdo, nem o direito. O melhor era o escolher o “lado de dentro”. E o finado Zelão complementava: “Passarinho que come pedra...”
1 comentários:
Caro professor,
A foto da tia Angélica foi feita em Brasília.
Muito bom o blog.
Bjos!
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