terça-feira, 28 de julho de 2009

A memória e o som de Dona Helena Meirelles


Assisti ontem o documentário sobre Helena Meireles no GNT (Globo News Television) e logo me veio na lembrança algumas cenas antigas. Quando fomos morar na Baixada Santista os colegas estranhavam o nosso sotaque caipira, com o erre dobrado (tarrde!). Perguntavam de onde tínhamos vindo e a gente respondia que éramos da divisa com o Mato Grosso. Sentíamos orgulho de dizer isso porque nos fazia ser diferentes, com uma identidade mais forte e definida. Ninguém conhecia Epitácio, muito menos Tibiriçá. Então falávamos “Mato Grosso”, de boca cheia e sem essa divisão territorial ocorrida em 1976. Não estávamos errados. O Sol em Epitácio se põe no Mato Grosso há milhões de anos e as nossas Luas sempre vinham de lá, surgindo misteriosa de tráz do varjão iluminando o rio e as praias. A primeira vez que vi um fogo-fátuo se movimentando pela noite escura foi na parte baixa das terras do seu Azenha, que fazia cerca com o sítio do meu avô, seis quilômetros Reta A-1 adentro, em direção ao Córrego da Anta. Vivíamos em contato permanente com o Mato Grosso, indo e vindo dos sítios , fazendas, acampamentos, procissões e cidades próximas. Epitácio recebia mato-grossenses de todos os lados, incluindo os índios e os paraguaios. A maioria dos nossos boiadeiros (condutores), administradores de fazenda, peões, tinham um pé no outro lado da divisa. Para nós, a idéia de sertão, de lugar distante, fim de mundo, sempre foi o Mato Grosso. Todos nós crescemos e convivemos com essas duas culturas misturadas: a paulista aventureira e a mato-grossense, nômade e quase selvagem, ambas através dos nossos amigos, vizinhos e parentes. Quem em Epitácio nunca atravessou com a balsa e a ponte para fazer alguma coisa no Porto XV ou em Bataguassu? Com quem aprendemos a comer carne com mandioca? Quem nos ensinou a fazer reviro paraguaio e ouvir guarânias?

Quando Helena Meirelles apareceu em Epitácio não entendemos muito bem o que ela veio fazer na cidade. Só depois de algum tempo entendemos que ela era da nossa região mesmo, lugar que desde a infância sempre fez parte de suas indas e vindas, do lado de lá e do lado de cá do Paranazão. Artista, mulher de boiadeiro, violeira de zona, mãe de onze filhos (nunca quis fazer aborto), dona do seu próprio nariz, Helena nunca esqueceu Epitácio, nem quando morava no Pantanal. Seu sonho de terminar a vida sossegada, numa casinha simples com o marido e os filhos se passava em Epitácio, lugar que para ela sempre foi sinônimo de alegria, de paz, de felicidade. Morreu aos 81 anos internada na Santa Casa de Campo Grande, mas seu pensamento e seu coração estavam voltados para essa grande extensão de terras e águas cortadas pelos rios Pardo e Paraná. Nos seu ouvidos ainda ecoavam o som distante dos instrumentos e o barulho dos bailes e noites verdadeiramente sertanejas. No documentário feito por Dainara Toffoli as imagens enfocam o Porto Epitácio como o principal ponto de referência para mostrar as raízes e as muitas andanças da violeira mais famosa do mundo. É isso mesmo, do mundo. Quando sua fotografia saiu publicada na revista americana Guittar Player, era um reconhecimento da sua raridade feminina e artística. O som rústico e modesto do seu instrumento fascinou tanto um jornalista americano especializado em música que ele não teve dúvida ao fazer essa comparação assustadora: “Quando eu morrer e ouvir o som da viola de Helena Meirelles e os solos de Jimmy Hendrix, terei a certeza de que estarei entrando no céu”.


Helena Meirelles com as cantoras sul-mato-grossenses Alzira e Tetê Espíndola. Fotos: Niels Andreas - Folha de São paulo; site de Alzira Espíndola; e Heraldo Peres


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