Família de Carlos Szucs, ainda na Europa, por volta de 1915. Os dois meninos que estão à esquerda se alistaram no Exército Austro-Húngaro e morreram na I Guerra Mundial. As outras crianças vieram com os pais para o Brasil por volta de 1920. Verônica Szucs é a menor das duas meninas à direita. Foto: arquivo familiar de Déa Santos Souza.
Este ano vamos comemorar os 90 anos da Colônia Arpad Falva, marco da imigração húngara na região de Caiuá e Presidente Epitácio. Historicamente a maioria dos brasileiros possuem os pés ficados em três raízes: uma na própria Pindorama, lugar de sonho e de graças dos povos indígenas, os legítimos donos da terra ; uma segunda na África, de onde vieram os negros que, na condição escravos, construíram literalmente as bases econômicas da futura nação; e uma terceira na Europa, de onde vieram não somente os ideólogos da colonização, mas também as multidões de excluídos ora pelo sistema aristocrático mercantilista , ora pelos expurgos da nova sociedade industrial. São os imigrantes de todas as épocas, todos em busca da utopia da felicidade. E em Epitácio, como a maioria das cidades do interior paulista, temos todas as manifestações culturais dessa busca, acrescentando ainda aquelas que foram produto da grande desigualdade interna, cujas fileiras foram e ainda são engrossadas pelos retirantes nordestinos.
Em 1920 o Império Austro-Húngaro já estava desmantelado pela nova ordem mundial imposta no Congresso de Versalhes. Dos povos eslavos que estavam sob a sua tutela, a Hungria talvez era o que mais gozava de liberdade e reconhecimento dos seus valores de nação. Mas não havia húngaros somente na Hungria. Muitos estavam espalhados pelos territórios do Império e, com a reorganização do mapa europeu após a Grande Guerra (Tratado de Trianon), muitos deles ficaram sem pátria. Muitos outros, pelas próprias conseqüências da guerra, cansados da instabilidade e corroídos pela incerteza do futuro, decidiram buscar na América a tão sonhada utopia. A maioria dos imigrantes desse período eram camponeses, gente de hábitos simples e que vivia da exploração da agricultura e da pecuária. Mais tarde, antes e após a Segunda Guerra , os húngaros que vieram para o Brasil eram mais urbanos ( comerciantes, artistas e burocratas) fugindo do nazismo e depois dos soviéticos. Para conhecer um pouco melhor a cultura e a paisagem húngaras sempre revejo o filme "Sunshine, o despertar de um século", do cineasta Stván Szabó, narrando com maestria e beleza imcomparável a trajetória de três gerações de uma família judia naquele país misterioso e encantador. Mas, genericamente, o povo húngaro é conhecido pela sua astúcia - herdada da mistura racial com os hunos, daí os olhos ligeiramente puxados lembrando a raça mongol - e pela afinidade com o conhecimento e as artes. Em nossa família, músicos, artistas plásticos e educadores têm marca reconhecida. O primeiro epitaciano a obter o título de doutorado acadêmico foi o engenheiro Carlos Szucs, neto do patriarca, pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde exerce a docência desde os primeiros anos da sua formação. Aliás, a univesidade é um espaço onde os descendentes de húngaros se adaptam muito bem. Tive três professores de sangue húngaro e com esse perfil intelectual : Antonio Rago, filósoso e músico, na PUC de São Paulo; a socióloga Caterina Koltai, também na PUC; e finalmente a minha orientadora no mestrado, Anna Maria Balogh, da Escola de Comunicação e Artes da USP.
A Colônia Arpad Falva, como muitas outras que se instalaram na região, foram estabelecidas com essa intenção primordial de ter um chão e reinventar no Brasil as experiências das suas origens e costumes. Isso porque o Brasil possuia um diferencial que as demais áreas escolhidas pela imigração não tinham com tanta significação: o fator acolhimento. Aqui os imigrantes jamais foram vistos como intrusos ou uma ameaça ao nosso modo de vida. As exceções dessa regra espontânea quase sempre se perderam nos seus objetivos e por isso mesmo caíram no esquecimento.
Certa vez conversamos em São Paulo com um Cônsul da Hungria e ele nos disse que a marca principal dos húngaros que viviam fora do país era exatamente a grande capacidade de adaptação e integração com as culturas locais. Antes desse comentário ele nos perguntara se éramos descendentes de colonos e não teve nenhum estranhamento ao perceber que a nossa pele tinha um ingrediente africano e também outros da nossa intensa miscigenação racial. Embora não tendo no sobrenome a identificação húngara, somos netos de Verônica Szucs, imigrante húngara da Colônia Arpade e que, na mesma década de 1920 se casou com Carlos dos Santos, autêntico exemplar afro-brasileiro, descendentes de escravos da região do Vale do Paraíba. Essa ousadia miscigenatória seria repetida numa segunda geração da família quando no início dos anos 1970 a nossa prima Sônia Szucs se atreveu casar-se com o então jovem operário Deusdete Leal. Soninha e Negão, assim como dona Vera e Carlos dos Santos nos anos 20, viveram nos anos 70 um dos mais conhecidos poemas de amor e quebra de preconceito da história social epitaciana.
Nossos bisavós eram Carlos Szucs (músico e dono de alambique) e sua esposa Santa Szucs. Esta não falava uma única palavra em português , mas conversava intensamente com os netos através de gestos e palavras estranhas que sempre associávamos com alguma coisa que estava acontecendo naqueles instantes. Nunca conseguimos aprender o idioma e isso talvez tenha sido uma das causas do desaparecimento da colônia. Ao contrário de nós, a maioria dos húngaros aprenderam português e por isso se misturaram com os brasileiros. Ainda assim nos restaram algumas lembranças, principalmente os hábitos práticos como a culinária, o pendor para as artes e o gosto pelas coisas do intelecto. Cada uma dessas famílias de descendentes, como nós, possuem suas memórias e também muitos documentos comprovando a autenticidade de suas raízes.
Certamente os húngaros que vieram para o Brasil e para a Colônia Arpad nunca mais voltaram a ser aqueles que um dia deixaram o território europeu. E os brasileiros que eles aqui encontraram e que, de alguma forma com eles se envolveram, também nunca mais foram os mesmos.
A Colônia Arpad Falva, como muitas outras que se instalaram na região, foram estabelecidas com essa intenção primordial de ter um chão e reinventar no Brasil as experiências das suas origens e costumes. Isso porque o Brasil possuia um diferencial que as demais áreas escolhidas pela imigração não tinham com tanta significação: o fator acolhimento. Aqui os imigrantes jamais foram vistos como intrusos ou uma ameaça ao nosso modo de vida. As exceções dessa regra espontânea quase sempre se perderam nos seus objetivos e por isso mesmo caíram no esquecimento.
Certa vez conversamos em São Paulo com um Cônsul da Hungria e ele nos disse que a marca principal dos húngaros que viviam fora do país era exatamente a grande capacidade de adaptação e integração com as culturas locais. Antes desse comentário ele nos perguntara se éramos descendentes de colonos e não teve nenhum estranhamento ao perceber que a nossa pele tinha um ingrediente africano e também outros da nossa intensa miscigenação racial. Embora não tendo no sobrenome a identificação húngara, somos netos de Verônica Szucs, imigrante húngara da Colônia Arpade e que, na mesma década de 1920 se casou com Carlos dos Santos, autêntico exemplar afro-brasileiro, descendentes de escravos da região do Vale do Paraíba. Essa ousadia miscigenatória seria repetida numa segunda geração da família quando no início dos anos 1970 a nossa prima Sônia Szucs se atreveu casar-se com o então jovem operário Deusdete Leal. Soninha e Negão, assim como dona Vera e Carlos dos Santos nos anos 20, viveram nos anos 70 um dos mais conhecidos poemas de amor e quebra de preconceito da história social epitaciana.
Nossos bisavós eram Carlos Szucs (músico e dono de alambique) e sua esposa Santa Szucs. Esta não falava uma única palavra em português , mas conversava intensamente com os netos através de gestos e palavras estranhas que sempre associávamos com alguma coisa que estava acontecendo naqueles instantes. Nunca conseguimos aprender o idioma e isso talvez tenha sido uma das causas do desaparecimento da colônia. Ao contrário de nós, a maioria dos húngaros aprenderam português e por isso se misturaram com os brasileiros. Ainda assim nos restaram algumas lembranças, principalmente os hábitos práticos como a culinária, o pendor para as artes e o gosto pelas coisas do intelecto. Cada uma dessas famílias de descendentes, como nós, possuem suas memórias e também muitos documentos comprovando a autenticidade de suas raízes.
Certamente os húngaros que vieram para o Brasil e para a Colônia Arpad nunca mais voltaram a ser aqueles que um dia deixaram o território europeu. E os brasileiros que eles aqui encontraram e que, de alguma forma com eles se envolveram, também nunca mais foram os mesmos.
O jovem Sônia Szucs, hoje Sra. Leal, assim como a tia Verônica Szucs, foi protagonista de uma das belas história de amor e ousadia na integração entre brasileiros e húngaros em Presidente Epitácio.
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