
Como rota de passagem obrigatória para quem buscava o norte e sul do então único estado de Mato Grosso, Presidente Epitácio sempre recebia viajantes de todos os tipos e destinos. A década de 1970 foi o longo período dos mochileiros, jovens vindos de todos os lugares, inclusive do exterior , tentando chegar ao Paraguai ou na Bolívia. Essas regiões eram nessa época muito cobiçadas pelos turistas por causa do livre comércio de produtos importados, verdadeiros ícones de consumo: calças e jaquetas Lee, whiskies, cigarros e artigos de couro.
Essa turma, que veio de Olaria, Rio de janeiro, era composta de universitários ligados à Igreja Católica e entre eles aparecem alguns moradores epitacianos encarregados pelo Padre Olívio Reato de recepcioná-los antes que partissem para Foz do Iguaçu. A foto foi feita sobre uma chata em julho de 1969, período de forte repressão do regime militar. Nesse momento em Epitácio estava acontecendo o conflito entre posseiros e fazendeiros na região do Campinal (ver as postagens sobre o assunto), o que gerou a suspeita e boatos de que eles tivessem algum tipo de ligação com os grupos de luta armada.
Assim como as legendas das fotos , esses comentários extraídos do blog Turma de Olaria ( do fotógrafo Guina Ramos) talvez esclareça um pouco dessa história.
Adorei a idéia do blog, mas creio que não sou eu nesta foto. Como nos dividimos em grupos, fiquei eu, o Paulo Anás e Gracinha (aposto que ninguém se lembra dela) desgarrados dos demais. Conseguimos uma carona direta e não paramos em Presidente Prudente. Daí fomos os primeiros a chegar em Presidente Epitácio(PE). O padre não nos recebeu pessoalmente, mas mandou uma pessoa nos entregar a chave de sua casa. Ficamos nós sozinhos em PE sem saber o que havia ocorrido com vcs e um tanto assustados (na época não havia celulares). Os tempos eram sombrios e nossa presença na cidade era vista com desconfiança. Havia problemas contra os camponeses e o padre apoiava o usocapião de terras por eles. Pois bem: correu boato que o padre "comunista" estava recebendo gente que iria se reunir aos camponeses em defesa de suas terras (seríamos nós, envolvidos em luta armada?). Eu, Paulo Anás e Gracinha sentimos um clima hostil e que éramos vigiados a cada instante. Decidimos então fingir que Gracinha namorava a mim e ao Paulo, os dois ao mesmo tempo e sem ciúmes e pertencíamos a uma "contracultura hyppie". Bem, a brincadeira foi útil e diminuiu a tensão, os olhares e vigias. Mas de outra feita eu e Paulo nos encantamos pela Gracinha e seu carinho conosco seus "namorados"de ocasião. Ao chegarmos de volta ao Rio foi grande a decepção quando conhecemos seu verdadeiro namorado. Que pena! Ele, ciumento, levou Gracinha embora do grupo...
Osvaldo

Aduzo mais uma pérola para a lenda que estamos a sacar do fundo do baú da história. Passada toda a aventura da barcaça + Foz + frio, fui a PRESIDENTE VENCESLAU com os padres da catedral de Presidente Prudente e... quem encontro? OLÍVIO! Residindo lá por diretiva do bispo. Perguntei a 1 dos padres da minha cidade se seria porque alguns populares de Epitácio estavam resmungando devido à pinguinha do Olívio ou se seria para protegê-lo da repressão- uma vez que ele levava comida aos camponeses que resistiam nas suas terras. O sacerdote não deu 1 resposta clara e, até hoje, não sei bem todos os detalhes do caso. Mas os lavradores resistiram até muito depois. Os militares não os atacaram. Porém, falta de amparo em seu labor (empréstimos, p. ex.) houve alguns que abandonaram seus terrenos. Não sei se ainda restam alguns lá...
Guina: um grande beijo no coração.
LONG LIVE PADRE OLÍVIO!
Bonilha
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2 comentários:
Olá, gostaria de saber se você possui informações sobre o prédio da Epitaciana, em Epitácio, quando foi feito, quem o projetou. Obrigada.
crispqd@yahoo.com.br
Adorei esta reportagem aonde vivi a minha infância,é uma pena que não tenha mais o trem que tanto viajava prá São Paulo e aonde estou residindo.Lembranças que tenho e muito dessa época valeuuu,agradeço muito a vc Dalmo por fazer voltar e relembrar da cidade aonde morei e estudei,meus Parabéns Dalmo.
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