domingo, 23 de outubro de 2016

Escoteiros em Tibriçá


Grupo Escoteiro do Porto Tibriçá - Chefe Fernando Foster. Anos 1960. Acervo: Deborah Soley Foster.

domingo, 18 de novembro de 2007

RECANTO ENCANTADOR


“(...) É surpresa agradável para o viajante deparar, em plena selva, perto de Presidente Epitácio, uma pequena cidade de casas de madeira, em franca florescência, que é um centro industrial capaz de emular com muitos que possuímos no litoral. Referimo-nos a Porto Tibiriçá, recanto encantador, de ruas largas e arborizadas, com iluminação elétrica – coisa que Presidente Epitácio não tem – e que possui um estaleiro naval, cuja capacidade pode ser avaliada pelo fato de ter sido ali construído o Tibiriçá, o maior navio que faz a navegação no Alto Paraná, elegante e confortável ‘gaiola’.

Theóphilo de Andrade, in “O Rio Paraná no roteiro da Marcha para o Oeste”, 1941.






sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A FUNDAÇÃO DA COMPANHIA DE VIAÇÃO SP-MT




Acta da Assembléa Geral dos excelentíssimos accionistas da Sociedade Anonyma “Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso”.
 
Aos Três dias do mez de Junho de 1908 (mil novecentos e oito), no prédio do Largo do Arouche, nº 2, n`esta Capital de São Paulo, presentes todos os accionistas que constituem a sociedade anonyma e formação “Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso”, em substituição da Sociedade Civil Diederichsen & Tibiriçá, nos termos da escriptura lavrada n`esta data no cartório do 2º Tabellião desta capital, a saber:

Arthur Diederichsen, brasileiro, lavrador domiciliado n`esta capital;
Dr. Francisco Tibiriçá, médico, brasileiro, domiciliado n`esta capital;

Antonio José Ribeiro da Silva, brasileiro, lavrador, residente n`esta capital;
Dr. Augusto Ferreira Ramos, brasileiro, engenheiro, residente nesta capital;

Dr. Joaquim Timóteo de Araújo Netto, brasileiro, lavrador, residente nesta capital;
Ernesto Diederichsen, brasileiro, negociante, residente nesta capital;

Frederico Ernesto de Aguiar Whitaker Júnior, brasileiro, negociante, residente em Santos;
 


Foi aclamado presidente da Assembléia o accionista Dr. Francisco Tibiriçá, que convidou para Secretário o accionista Antonio José Ribeiro da Silva.

Em seguida foi declarado pelo Presidente que o motivo d`aquela reunião era....avaliar os bens e direitos da firma Diederichsen & Tibiriçá e de Arthur Diederichsen e sua mulher, bens e direitos estes que passarão para a sociedade anonyma em formação, conforme consta da mencionada escriptura lavrada hoje em notas do 2º Tabellião desta Capital...”

  

NO CORAÇÃO, NA MEMÓRIA E NA CERTEZA



Este relato é dedicado a todas as pessoas nele citadas, porque, direta ou indiretamente, foram elas que contribuíram para compor essas memórias. 

Lembramo-nos de maneira especial dos pioneiros que fundaram as bases desse lugar onde nascemos e também optamos para viver; aos que plantaram as sementes e formaram as nossas raízes, por meio das suas famílias, no trabalho diário, bem como na dedicação simples e desinteressada das ações humanitárias.

Cada família originou-se a partir de um núcleo gerador ou empreendedor, que em nosso caso foi o casal Guilherme e Manoela Borges, pioneiros mais antigos que acolheram nossos avós migrantes e imigrantes, proporcionando-lhes oportunidades em forma de trabalho, educação e convívio.

Todas essas pessoas deram uma parte significativa de suas vidas para que o Porto Tibiriçá e Presidente Epitácio fossem ninhos seguros e dignos, para traçar planos e realizar sonhos. Mesmo os que lá não permaneceram, desfrutando apenas poucos meses ou alguns anos dessa convivência, jamais esquecem os dias e as horas que ali passaram.

Aos nossos avós, pais, tios, primos, compadres, vizinhos, amigos, educadores, colegas e todos que, de uma forma ou de outra, fazem parte da nossa história e das nossas mais caras e ternas lembranças.

Os momentos de alegria, tristezas, desafios e provações, todos bem guardados na memória afetiva e espiritual dos que um dia beberam a água do rio Paraná, sentiram o vigor das matas próximas e também o cheiro de barro antes das chuvas março.

Jamais esqueceremos esses sinais e ritmos da natureza que nos acolheu. Até hoje eles nos remetem ao entardecer alaranjado dos dias quentes do verão, ao mistério das noites frescas e ventosas do outono com suas luas deslumbrantes. E as curiosas manhãs de serração? Impossível esquecer a friagem do orvalho na grama e também as noites frias, muitas das quais nos aquecemos alegremente nas fogueiras das festas juninas.

Sempre vêm nessas lembranças os latidos constantes dos cães nas madrugadas longas, o canto dos galos e dos pássaros nas alvoradas; a buzina da carroça do pão, o grito do leiteiro, o sino das escolas e da igreja; o primeiro e último apito do trem, das embarcações fluviais e também das serrarias.

Esse foi o nosso tempo, que correu veloz até que déssemos conta de que ele passou e que não havia mais nada a fazer senão recordar todas essas coisas que marcaram os dias que se foram.

Estou convicto de que o Porto Tibiriçá, Presidente Epitácio e São Vicente existem não somente na memória de quem lá viveu, mas também duplicado no plano etéreo do mundo astral ou quarta dimensão temporal. É para esse “lugar” que todos nós vamos, quase todas as noites de sono profundo, e no qual encontramos o nossos próprios e outros EUs, tal qual somos e nos manifestamos.

O que chamamos de sonhos não passam de incursões vivas da nossa mente, nas quais percorremos as veredas das nossas lembranças do que foi e expectativas do que virá. Muitas vezes esses sonhos são tão reais (e são mesmo) que temos a impressão de que não se trata apenas fantasias ou recalques e sim experiências autênticas nas quais nos comportamos, tal qual estivéssemos em vigília.

Quando muitas mentes e corações sonham e vibram num mesmo diapasão e sintonia, certamente se atraem e passam a compartilhar entre si todos esses “sentidos”. Por isso, não é de se estranhar que nesses sonhos encontremos amigos que já se foram para outras moradas, pessoas que estão fisicamente distantes e que também relatam as mesmas ocorrências, coincidências e impressões.

                                              

O autor

São Vicente, abril de 2013.

 

O NASCENTE E O POENTE




Nasci no Porto Tibiriçá (atual Presidente Epitácio) e hoje estou vivendo em São Vicente, na região metropolitana de Santos.  Já havia morado em São Vicente, entre 1974 e 1984; depois mudei para São Paulo em 1985. Voltei para Epitácio na década de 1990, onde fiquei até 1997. No ano seguinte fui morar em Campo Grande – MS, cidade que acolheu muitos epitacianos. Voltei para São Paulo em 1999 e retornei para São Vicente em 2001. 

Sempre que faço esse pequeno e confuso relato as pessoas logo reagem, tentando compreender os motivos de tantas andanças e mudanças. 

Outra coisa, o que tem a ver São Vicente, uma cidade fundada no século XVI, com o Porto Tibiriçá, fundado no início do século XX? 

O que poderia ter em comum essas duas localidades tão distantes, uma no litoral e outra no interior, e com quatro séculos de diferença?  

Tudo a ver.

Muita gente do interior vem para a Capital, para o litoral e também vai para o exterior. Outros tantos fazem o percurso contrário. Sou do Porto Tibiriçá e creio que tem muitos e tibiriçaenses e epitacianos em vários lugares do Brasil e do mundo. Tem muita gente da nossa terra vivendo no litoral, em São Paulo, em várias regiões do Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, em vários países da Europa e até do leste europeu. É possível que tenha morrido algum pirangueiro no Word Trade Center. No Japão também tem epitacianos, é claro! 

Creio que as pessoas vão para os lugares por algum motivo muito mais forte do que aquele que simplesmente funciona como pretexto e impulso para as mudanças. Mudar de lugar é uma busca de algo que se perde dentro de nós mesmos e que, na verdade, não está exatamente nos lugares para os quais a gente quer ir. Pode ser que aconteça, de acharmos o que realmente procuramos ao mudarmos de endereço, mas não é o lugar em si que é o motivo verdadeiro da procura, nem a causa real do encontro. São as coisas que acontecem, em determinados lugares, em determinados momentos que fazem realmente com que se façam algumas escolhas e essas decisões provoquem algumas mudanças na forma de ver e encarar a vida. Essa é a verdadeira mudança, a qual podemos realmente chamar de destino. Nas terras por onde se passa, descobre-se, se constrói um chão e nele o relógio do tempo avança numa sucessão de fatos e circunstâncias. Ao mesmo tempo o contato com esse chão aciona uma bússola, que nos conduz pelas veredas das decisões e escolhas. Aí a gente muda.

Certa vez eu fiquei fascinado pelo mar. Acho que isso também aconteceu com a minha mãe. Foi ela que teve a ideia de mudarmos para o litoral. Era um tipo de angústia que ela sentia na alma durante décadas e só curou parcialmente quando fomos viver próximo ao mar. Herdei isso dela. Meu pai sentia a coisa de forma contrária: vivia com o pensamento voltado para o sertão, lugar onde acreditava ter vivido os melhores momentos de sua última existência e, no final dela, conseguiu realizar o sonho de morar novamente em Epitácio. Seu corpo está sepultado no Horto da Igualdade, embora seu Espírito certamente não esteja lá. Aliás, sabe-se que algumas pessoas que foram viver longe fazem questão de ter seus corpos enterrados em Epitácio, pessoas que estavam vivendo na América do Norte e nunca tiraram Tibiriçá e Epitácio da memória sentimental. 

O céu do sertão é bem diferente do céu do litoral; são cores e ventos diversos e opostos. O poente e o nascente repercutem de forma diferente no psiquismo das pessoas e isso influencia nas escolhas importantes que elas fazem na vida. Dizem que nascemos assim, mentalmente inclinados para o nascente ou para o poente, para o sertão ou para o mar. 
Eu tinha 10 anos quando vi o mar pela primeira vez. Foi em 1972, quando fomos passar uma rápida temporada em Praia Grande. Naquela época a rodovia Castelo Branco, que liga a Capital e o interior, ainda era nova e nas proximidades de São Paulo, Osasco e Barueri não havia muito tráfego de carros. 

Para descer a serra era necessário cruzar a grande metrópole e chegar até a longínqua Via Anchieta, localizada na então área industrial dos municípios do ABC. A rodovia dos Imigrantes era só um projeto. Naquele ano meu pai havia tirado a sorte na loteria federal ganhando 65 mil cruzeiros.  O prêmio logo foi transformado em uma casa, na esquina da ruas Curitiba e Guanabara, que nunca chegamos a morar, pequenos empréstimos para amigos, pagamento de dívidas e uma Kombi zero quilômetro, na qual fizemos essa longa viagem de uns 700 quilômetros para Baixada Santista. Nessa viagem fomos acompanhados pela família do grande amigo Tião Silva, espirituoso e sempre bem humorado, como a maioria das pessoas do seu sangue. Nessa viagem inesquecível tudo, como sempre, era motivo de comentários satíricos e gargalhadas. Saímos de Presidente Epitácio ainda de madrugada e fomos até Ourinhos pela rodovia Raposo Tavares. Lembro mesmo dos postos de serviços da BR, na rodovia Castelo Branco; aos meus pequenos olhos aquilo tudo era muito grande e repleto de curiosidades. Saímos de madrugada e pouco depois do meio dia já estávamos deslizando pelas “curvas da estrada de Santos”. Antes disso tivemos que entrar em São Paulo, pois o acesso principal à rodovia Anchieta era pela Avenida do Estado sentido Ipiranga. A cena mais impressionante nesse trecho entre São Paulo e Santos era a enorme fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, com aquele prédio enorme de arquitetura alemã, com linhas retas, janelas amplas, revestimento de bom gosto, revelando a inteligência pragmática e tecnologia sempre avançada dos alemães. Até hoje me causa forte impressão ver aquelas enormes instalações com seus pátios gigantescos abarrotados e também a ruas do entorno repletas de carros.

Dali fomos entrando lentamente na sempre misteriosa Borda do Campo, com sua vegetação monótona envolta em neblina, passando pela represa Billings e percorrendo um longo trecho, na época quase deserto, até chegarmos ao ponto de declive que nos levaria ao litoral. Fomos descendo a Serra e meus olhos iam se projetando fixamente no horizonte em direção ao Oceano Atlântico e então, finalmente, pude ver o mar azul, não tão azul quanto tinha visto no cinema, porém uma imensidão a perder de vista. A diferença era que esse azul parecia ter o cheiro da maresia, aumentando ainda mais o meu fascínio pela paisagem deslumbrante do litoral. Meu pai dirigia bem devagar, talvez por cautela e também curiosidade, para aproveitar o espetáculo. Tinha visto algumas fotos dele e do meu avô, os dois em trajes de viajantes e depois de sunga numa praia de Santos, nos anos 40, provavelmente a do José Menino ou do Gonzaga.

Ainda hoje não consigo explicar direito o que eu sentia naquele instante. A ansiedade para chegar rapidamente, tão comuns nas crianças, em mim era um sentimento de quem buscava algo diferente naquela paisagem sempre deslumbrante. Aquela imagem do Atlântico penetrou na minha retina e tornou-se inesquecível, assim como, na memória olfativa, permaneceu o cheiro do mar.

Essa aparente viagem de férias era na verdade o nosso reencontro com antigas paisagens desconhecidas pela memória consciente daqueles instantes, porém familiares nas lembranças remotas do inconsciente de outros momentos que ficaram no passado. Naquela época nenhum de nós sabia o que significava déjà vu, porém essa era a sensação que tomava conta de mim, da minha mãe e talvez do Mia que, inexplicavelmente resolveu fazer essa viagem com a gente. Estávamos nos reencontrando com o litoral e também marcando o próximo encontro de um convívio mais longo, talvez definitivo, para os próximos cinquenta ou setenta anos. 

Durante uma semana visitamos Praia Grande, Santos, Bertioga, Itanhaém e Guarujá. Era um tempo em que essas incursões eram mais demoradas, principalmente ao litoral Sul, pois o único acesso era pela velha Ponte Pênsil, cujas filas de ida e volta eram enormes nas temporadas de verão. A cada ponto turístico ou lugar comum por onde passávamos tínhamos a impressão nítida do “já vi” e “já estive aqui”. Visitamos também muitos amigos epitacianos que já moravam há anos na Baixada Santista, especialmente o Manuca (Manoel) e o Chiba (Claudio), ambos filhos da Dona Lindina e também mãe da Irene, esposa do Tião Silva, nossos convidados. O Manuca (casado com a espanhola Maruca) trabalhava no jornal A Tribuna, da família Santini, com quem a mãe havia trabalhado por muitos anos como colaboradora doméstica. O Chiba trabalhava em Cubatão, na Copebrás, e a Cleusa, sua esposa, era funcionária do INPS. Fomos muito bem acolhidos, nessa viagem e também quando mudamos para São Vicente, recebendo deles ajuda preciosa para nos instalarmos na cidade. A primeira casa em que moramos pertencia ao casal Nezinho e Janice, também filha da Dona Lindina. 
Quando voltamos para Epitácio naquele verão de 1972 já não éramos mais os mesmo, pois algo diferente e muito grave havia acontecido com os nossos espíritos. A viagem, que foi feita apenas para diversão e lazer, tinha causado um desvio existencial em cada um de nós fazendo com que antigas dúvidas e anseios se multiplicassem em nossos mundos íntimos. Voltar para Epitácio naquele ano foi distanciar-se da sensação de experimentar algo muito diferente do que experimenta o turista deslumbrado com o desconhecido. Para nós, nada daquilo era desconhecido e logo, dois anos depois, estaríamos descendo novamente a Serra do Mar para apagar definitivamente os efeitos do déjà vu.

 UMA VELHA CIDADE NOVA

A história das pequenas cidades do interior, quando relatadas de forma linear e cronológica, tende a ser monótona, como a própria vida que acontece nelas todos os dias. Raramente encontramos heróis ou personagens de destaque, exceto aqueles que saíram dali para brilhar em outros lugares. 

Quando recorremos à memória do cotidiano, as coisas e os acontecimentos adquirem um ritmo diferente, mais vivo e autêntico. Até mesmo as pessoas mais simples e aparentemente insignificantes tornam-se personalidades importantes e aparecem como agentes sociais tão influentes quanto os que normalmente aparecem em destaque nos tradicionais livros de história. Nessa história do cotidiano e das mentalidades quase todos se tornam protagonistas e são mostrados como personagens essenciais dos acontecimentos geralmente lembrados nos ambientes mais populares e distantes das academias.

Esta não é uma dessas narrativas tradicionais de personalidades heroicas e fatos monumentais e sim de fragmentos e cenas esparsas, colhidas no dia a dia das pessoas que viveram esses momentos e que hoje compartilham espontaneamente as suas experiências do passado. Daí o motivo de termos escolhido o estilo memorial, que é o apelo direto a uma fonte primária, da chamada “testemunha ocular da História...”

Presidente Epitácio sempre teve fama de terra de “forasteiros”, de gente “aventureira”. Como diversas outras localidades do Oeste paulista, tornou-se nas primeiras décadas o próprio cenário das aventuras e depois um lugar de passagem para quem iria aventurar-se no Mato Grosso ou no Paraná. Era tudo ou nada, terra de promissão ou terra de ninguém. 

Nesses anos a cidade já teve muitos apelidos e adjetivos que refletiam o estado de espírito de quem opinava sobre suas características. 

Nos primeiros tempos quem estava insatisfeito com a cidade dizia que ele era uma “Cidade sem Deus”. 

Em meados da década de 1980, quando Epitácio recebeu os funcionários da CESP e das empreiteiras das obras da Usina de Porto Primavera, essas famílias eram discriminadas como “barrageiros”, gente que, segundo o preconceito popular, não inspirava confiança porque não possuía vínculos culturais com a cidade. Muitos se foram em busca dos seus sonhos. Porém, muitos outros ficaram porque, para eles, Epitácio era exatamente o lugar que procuravam.

E tem sido assim, desde quando surgiram os primeiros migrantes na década de 1920. Muitos deles apenas passaram pela localidade, buscando algo que jamais iriam encontrar, pois, na verdade, estavam perdidos nos labirintos do mundo íntimo, sem rumo existencial, em busca de si mesmos. Porém, boa parte dessa gente ali ficou porque tinha destino certo, talvez um pouco incerto, mas sabiam que não corriam atrás de uma simples ilusão. Sonhavam alto e queriam fincar raízes. Por isso, a maior parte do povo de Epitácio não nasceu na cidade, mas nela se fixou para viver e concretizar seus sonhos de realização prosperidade. 

Quando as pessoas procuram uma cidade para morar certamente estão procurando algo mais do que simplesmente sobreviver. Querem não somente a prosperidade material, mas também a realização espiritual. É essa ideia de buscar a felicidade que nos faz compreender porque tanta gente deixa seus lugares de origem para nunca mais voltar. Partem para lugares distantes ou próximos porque precisam realizar sonhos, fantasias, projetos, ambições, etc., que quase sempre se tornam, na visão deles, impossíveis onde estão suas primeiras raízes. Foi assim também que muitos epitacianos foram parar em lugares que a gente nem imagina, como nós, que certa vez partimos do crepúsculo alaranjado do sertão em busca do azul do mar. 

Como muitos outros pirangueiros que hoje vivem fora, embora distante, guardo em minha memória uma boa parte da história do lugar onde nasci, vivi a infância e parte da adolescência. São lembranças de acontecimentos, de pessoas e costumes que revelam a importância das raízes, das referências que carregamos por todos os lugares e que perduram no tempo e no espaço.

Sou um epitaciano da segunda geração, descendentes de pioneiros e forasteiros, de uma época em que a cidade era apenas uma promessa. Hoje Epitácio já está entrando na terceira geração e muito breve não terá mais a presença física dos habitantes da primeira hora.

Comparando a história de Epitácio com a história de outras localidades entendemos de imediato que o tempo realmente é relativo, pois aquilo que nos parece velho e antigo, em outros lugares é novo e recente. Epitácio é uma cidade velha para quem lê os relatos dos primeiros desbravadores, imaginando que o fundador do Porto Tibiriçá e, portanto, de Epitácio, viveu nos tempos remotos da colonização portuguesa. Muito pelo contrário, o Porto Tibiriçá e Presidente Epitácio foram fenômenos do pós moderníssimo século XX, o século mais agitado, mais científico e tecnológico que já viveu a Humanidade.

Apesar do isolamento, dos perigos da selva, da precariedade de recursos, em 1907 o mundo já era bem pós-moderno. Paris era uma cidade de três milhões de habitantes, tinha galerias de compras mais sofisticadas que os shoppings atuais e já ditava a moda. Em Londres e Nova York já existiam metrô, jornais e revistas de grande circulação e exposições de arte e tecnologia. 

Quando os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana chegaram a Epitácio, em 1922, em São Paulo estava sendo organizada a Semana de Arte Moderna, uma verdadeira revolução estética na arte e na comunicação. Em 1924, durante as agitações tenentistas, Juarez Távora, aliado de Isidoro Dias Lopes, tentou fazer do Porto Tibiriçá um marco da revolução mudando o nome do lugar para homenagear o irmão morto em combate. 

Quando a cidade instalou sua Câmara Municipal e teve o seu primeiro prefeito, entre 1948 e 1949, o mundo estava em plena Guerra Fria e no auge da pesquisa nuclear. Nenhuma das ruas de Epitácio eram calçadas quando, em 1963, os Beatles foram apresentados como a nova sensação pop no programa de TV de Ed Sullivan. 

E finalmente, em 1969, quando, fazendeiros e posseiros do Campinal disputavam a bala um pedaço de terra que mais tarde seria inundado pelo lago artificial, os astronautas da Apolo 11 estavam desembarcando na Lua e pensando na conquista do Espaço Sideral. 
TIBIRIÇÁ E A TRAJETÓRIA PAULISTA
O pioneirismo paulista é provavelmente uma das mais importantes epopeias registradas nos arquivos da história brasileira, repleta de atos heroicos e acontecimentos incomuns. 
Foram três os momentos do ímpeto conquistador que impulsionaram a marcha de ocupação territorial que daria origem ao mais rico e próspero estado da federação.

O primeiro avanço aconteceu na colonização mercantil do século XVI, com a formação das Capitanias Hereditárias, na qual o engenho vicentino de Martins Afonso de Souza foi o modelo empreendedor. São Vicente e Pernambuco foram praticamente as únicas capitanias que vingaram como unidades políticas e produtivas, segundo as exigências dos sistema colonial; e foi por causa delas que Portugal resolveu implantar o Governo Geral. Os vicentinos partiam do litoral em muitas direções em busca ouro, diamantes e da mão-de-obra indígena, compulsória.
O segundo avanço, já no século XIX, foi marcado pela expansão cafeeira, inicialmente na direção da Serra da Mantiqueira e posteriormente para o meio Oeste, na grande região de Campinas e Ribeirão Preto. 

E finalmente, já na primeira metade do século XX, por meio da enorme malha ferroviária, derrubando matas, abrindo novas fazendas, espalhando estações de percurso e distribuindo grandes contingentes humanos em busca de trabalho e do sonho de felicidade. 

Primeiro os caminhos de terra e água e depois os trilhos de ferro, do litoral vicentino até às margens do rio Paraná, de olho no infinito sertão.

Portanto, o Porto Tibiriçá é também, como São Vicente é para o Brasil, a “cellula-mater” do Oeste paulista e do Pontal do Paranapanema. Não havia outra forma mais prática e eficiente de atingir essa imensa região, ainda despovoada em pleno século XX, se não pela via fluvial Tietê-Paraná, contorno natural que economizou tempo e recursos tanto das novas “Entradas” da Comissão Geográfica e Geológica do Estado, quanto da nova “Bandeira” da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso.

Muito antes que as principais cidades da região fossem fundadas e adquirissem o status de vila, distrito ou municipalidade, o Porto Tibiriçá e a Estrada Boiadeira se organizavam como estabelecimentos empresariais e fatores e socioeconômicos que estimulariam as futuras instituições políticas da Alta Sorocabana. 
Os autores desse evento histórico que deu origem ao município de Presidente Epitácio e outros da dessa região foram o Capitão Francisco de Aguiar Whitaker e todos os seus companheiros da expedição. Estava com ele o mandatário paulista Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho, que se tornou nesse evento histórico e político o primeiro administrador do Porto Tibiriçá. Estes, com o auxílio de 25 homens, cumpriam uma das metas da Diederichsen & Tibiriçá, futura Companhia de Viação São Paulo - Mato Grosso, para estabelecer um ponto de comunicação viária entre os dois estados e concluir as obras da Estrada Boiadeira, sua principal base de negócios na região. O porto recebeu o nome do médico Francisco Tibiriçá, sócio da empreitada e primo do então governador do estado, Jorge Tibiriçá Piratininga.
Portanto, o Porto Tibiriçá e Presidente Epitácio não possui apenas um fundador. Na verdade foram todas pessoas que participaram diretamente desse evento histórico, como testemunhas e agentes sociais transformadores.  É claro que aqueles que comandam esses empreendimentos são habitualmente elevados à categoria principal dos agentes históricos; e que os liderados permanecem anônimos, obviamente por causa da sua “insignificante” posição social. Ainda assim, mesmo que persista o vício das narrativas épicas, que só contemplam e nomeiam os maiorais da pirâmide social, é   preciso que se faça uma grave correção, já que o Capitão Francisco Whitaker não estava sozinho na empreitada. Junto com ele também estava o Coronel Paulino Carlos e Francisco Sanches Figueiredo, figuras de alta importância social na época, marcando presença como chefes políticos regionais. Paulino Carlos e Francisco Sanches não eram apenas figuras acompanhantes, mas ali estavam como símbolos de poder da velha oligarquia paulista demarcando um antigo território que haviam subtraído dos indígenas. Tanto é que antes e ao ser concluída a empreitada, ambos foram foi rapidamente reconhecidos e investidos como autoridade locais pelos empreendedores e investidores. 

Radicalmente, devemos lembrar ainda que o Coronel Francisco Sanches já havia fincado ali as bases da futura Vila Tibiriçá quando em 1906 se instalou, abriu uma clareira na mata e preparou o terreno para a chegada da flotilha. Mesmo com a reação destruidora e violenta dos indígenas, irritados com o seu gesto conquistador. Acrescentamos ainda a atuação providencial do Sr. Alonso Junqueira, administrador da Fazenda Novo Niagara, próxima a Estação de Mandury, que muito auxiliou na organização do acampamento e da futura Vila. Ele chegou em Tibiriçá uma mês após o desembarque da flotilha, porém teve a missão de estabelecer ali um posto avançado para fazer a ligação com a estrada que vinha de Indiana.  Segundo o próprio Whitaker, o Sr. Junqueira, fundador de Indiana, foi a pessoa que levantou o “primeiro rancho coberto de zinco que este sertão vio”.  Todos esses homens e seus serviçais são também, portanto, ao nosso ver, legítimos fundadores do Porto Tibiriçá e de Presidente Epitácio, tanto quanto Whitaker, bem como os membros da famosa viagem, que até hoje permanecerem anônimos. 
São também, não podemos esquecer, usurpadores dos territórios indígenas, em nome do progresso. Há que se considerar também o papel de cada um investidores e sócios da Companhia, cujos recursos materiais permitiram a realização da empreitada, cujos custos foram financiados por eles. Esses sete investidores foram responsáveis diretos pela estruturação física do Porto Tibiriçá e assim o mantiveram por longos anos até que, por causa das mudanças geradas pela II Guerra Mundial, o governo federal fizesse a encampação por meio da SNBP-Serviço de Navegação da Bacia do Prata.

 

A FUNDAÇÃO DA CVSP-MT


Acta da Assembléa Geral dos excelentíssimos accionistas da Sociedade Anonyma “Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso”.

Aos Três dias do mez de Junho de 1908 (mil novecentos e oito), no prédio do Largo do Arouche, nº 2, n`esta Capital de São Paulo, presentes todos os accionistas que constituem a sociedade anonyma e formação “Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso”, em substituição da Sociedade Civil Diederichsen & Tibiriçá, nos termos da escriptura lavrada n`esta data no cartório do 2º Tabellião desta capital, a saber:

Arthur Diederichsen, brasileiro, lavrador domiciliado n`esta capital; Dr. Francisco Tibiriçá, médico, brasileiro, domiciliado n`esta capital; Antonio José Ribeiro da Silva, brasileiro, lavrador, residente n`esta capital; Dr. Augusto Ferreira Ramos, brasileiro, engenheiro, residente nesta capital; Dr. Joaquim Timóteo de Araújo Netto, brasileiro, lavrador, residente nesta capital; Ernesto Diederichsen, brasileiro, negociante, residente nesta capital; Frederico Ernesto de Aguiar Whitaker Júnior, brasileiro, negociante, residente em Santos;

Foi aclamado presidente da Assembléia o accionista Dr. Francisco Tibiriçá, que convidou para Secretário o accionista Antonio José Ribeiro da Silva.

Em seguida foi declarado pelo Presidente que o motivo d`aquela reunião era avaliar os bens e direitos da firma Diederichsen & Tibiriçá e de Arthur Diederichsen e sua mulher, bens e direitos estes que passarão para a sociedade anonyma em formação, conforme consta da mencionada escriptura lavrada hoje em notas do 2º Tabellião desta Capital...”
 
           A história do Oeste paulista é muito mais antiga do que se imagina, pois remonta o período pré-cabraliano, passando pelos tempos inesquecíveis da exploração colonial e abrangendo a expansão desenvolvimentista do II Império e da Primeira República. Enquanto São Vicente foi o marco de partida da trajetória histórica do Brasil e estado de São Paulo, o Porto Tibiriçá foi o ponto de chegada dessa jornada de cinco séculos de pioneirismo e ocupação territorial. 
A investigação histórica tem as suas dúvidas, perguntas que não se calam e que dão sentido filosófico ao trabalho de pesquisa e síntese historiográfica. Gostaríamos de poder responder, por exemplo, quem eram os 25 homens que acompanhavam o Capitão Francisco Whitaker e o Coronel Paulino Carlos e que permaneceram em Tibiriçá para dar início à construção do porto; de onde eles vieram, quais eram seus nomes e sobrenomes. Que qualificação e experiência profissional eles tinham para participar dessa empreitada? Eram mateiros (cai-pira) ou sertanistas, simples homens rústicos e aventureiros? Quais eram as suas crenças e perspectivas de vida? Eles permaneceram no Porto Tibiriçá ou na região? Deixaram descendentes ou foram ganhar a vida em outras empreitadas?

Tudo isso nos faz refletir que esses fatos ocorridos entre dezembro de 1906 e janeiro de 1907, narrados de próprio punho pelo Capitão, são mais do que simples datas perdidas nos arquivos do passado. Qual é o seu verdadeiro significado histórico? Quais poderiam ser as repercussões políticas e culturais diante da constatação de que o Porto Tibiriçá não foi apenas uma vila de moradores de uma empresa que, como tantas outras da mesma época, já não existem mais?

As tradições são fortes e duráveis, porém muitas delas são construídas em cima de inverdades, produto do imaginário humano e principalmente da necessidade de dar explicações míticas para coisas que a razão não consegue explicar. Não é coincidência que a palavra “tradição” possui a mesma raiz das palavras “tráfico” e “traição”. A tradição inventada toma força social quando ela preenche um vazio cultural deixado pela ausência da verdade. Como dizia o dramaturgo Dias Gomes no texto de Roque Santeiro, a tradição inventada é a arte de transformar “aquilo que foi sem nunca ter sido”. Presidente Epitácio, como todas as outras cidades, possui suas histórias e também seus mitos e suas tradições inventadas.

Quais são elas? Como podem ser diferenciadas?

Essas questões só podem ser solucionadas quando os fatos, bem documentados e questionados, substituem os mitos. Mesmo assim, diante da impossibilidade da verdade estar acessível a todos, os mitos persistem, se incorporam às crenças e passam a fazer parte da mentalidade e dos hábitos do povo. 

Essa é diferença entre o mito e a História, entre a facilidade de realçar o 1º de janeiro de 1907 como uma nova tradição, uma nova crença cívica, assimo como a possibilidade de questionar, por exemplo, por que a cidade adotou um nome que nada tem a ver com as suas origens mais remotas e suas verdadeiras raízes históricas.
 
FIM DOS TRILHOS, FIM DO MUNDO



Presidente Epitácio já foi o fim do mundo, os “limes” da civilização paulista e das fronteiras do Brasil. No começo do século XX toda essa região cortada pelo rio Paraná era vista como porta de entrada para uma interminável floresta tropical, praticamente intacta e que começava imediatamente após a travessia dessas águas que os índios chamavam de Grande Mar. Assim como hoje os turistas buscam os confins do Acre, Rondônia, Amazonas e Roraima para conhecer a selva, o Porto Tibiriçá era o ponto de encontro e partida de expedições oficiais, científicas, militares e de turismo, por meio dos vapores da Companhia de Viação. As missões religiosas dos freis capuchinhos e do antropólogo e sertanista alemão Curt “Nimuendajú”; as pesquisas de medicina tropicalista do Dr. Adolpho Lutz; e também a movimentação das tropas tenentistas de Juarez Távora são provas dessa grande atração que o rio Paraná exercia entre os diversos tipos de viajantes em busca da aventura e do desconhecido. Tudo isso acendia a imaginação dos turistas, que ficavam sabendo dessas coisas pelos relatos dos expedicionários, publicados em livros ou nas páginas dos jornais e revistas.

Despertava também, em pleno século XX, o antigo espírito de aventura da Capitania Vicentina, herança que o geógrafo francês Pierre Monbeig (Pioneiros e fazendeiros de São Paulo) identificou com “psicologia do bandeirante”.  No início dos anos 1930, quando lecionava na USP, Monbeig vasculhou o interior paulista servindo-se da malha ferroviária que avançava em direção ao Oeste do estado para estudar as grandes transformações da paisagem e da experiência social. Observou mais detidamente os motivos humanos recentes do desbravamento florestal da Alta Paulista:

“No curso de minhas viagens, muitas vezes encontrei moços, nascidos nas grandes cidades, antigos alunos de escolas de Medicina, de Agronomia, de Engenharia, em São Paulo ou no Rio de Janeiro, que viviam duramente; em meio de gente rude e bruta, e experimentavam evidente alegria na vida sertaneja. Nisso contava muito o lado esportivo. Mas também a sensação de criar, o sentimento de manter uma tradição e o orgulho de contribuir para engrandecer o seu país. Há nos brasileiros, mais frequentemente nos de Minas Gerais e de São Paulo, uma espécie de instinto que os impele sempre para adiante, para além da civilização. Não é raro ouvir dizer de um homem e de sua família que não podem ouvir o silvo da locomotiva. São os que sempre moram um pouco além da estação terminal de uma ferrovia. Quando esta prolonga os trilhos, embrenha-se o homem mais pra dentro do sertão. Gosta esse tipo de homem dos vastos espaços desertos, onde pode viver longe dos constrangimentos sociais.  Trata-se muitas vezes de um caçador ou de um criador de gado. Nas margens do rio Paraná, do Tietê, encontram-se famílias que vivem da caça e da pesca. Preferem outros o nomadismo do boiadeiro que, conduzindo boiadas provenientes de Goiás, do Mato Grosso e de Minas Gerais, encaminham-se para as pastagens paulistas. Gente pobre, na maioria, frequentemente negros, mas também outros que possuía terra e abandonado casas nas cidades de São Paulo e Minas Gerais, desistido da família, estudo, profissões, liberais. Vai diminuindo essa espécie, pois quase já não há lugares onde o caminhão não atinja”
 
 

 
Na década de 1930 o Porto Tibiriçá, como seria Epitácio trinta anos depois, era estrela turística de cartões postais que circulavam nas grandes cidades. Éramos vistos não somente como a “Amazônia” daquela época, mas também, de certa forma, a “África” da bacia dos rios platinos. 

Escritores e leitores sempre compartilharam um olhar exótico e pitoresco do sertão do extremo Oeste paulista. Isso valia também para   últimas cidades e estações de trem, sobretudo porque, além de ter conservado muitas das suas características selvagens, elas ainda estavam bem próximas da então exuberante floresta mato-grossense.  

No livro “Pedro Fineza”, a escritora Arthuzina de Oliveira D’Incao, também em narrativa recente, conserva para si a visão de uma época muito remota, alimentando também na imaginação dos seus leitores cenas de uma Epitácio sertaneja, lugar de grandes mistérios e perigos, perdido nas mais longínquas distâncias:

“Fernão sentia fome e em vão procurava pelos bolsos um níquel que lhe permitisse aplaca-la. Haviam-lhe carregado tudo: até as abotoaduras de brilhantes e a cinta de fivela de ouro. Andou a esmo pelo lugarejo, agora iluminado pelo sol. Viu, rente às casas rústicas de tábuas, a mataria pujante vedando os horizontes. Porto Epitácio era apenas uma clareira aberta em plena mata. Uma ruazinha sem traçado fixo, em frente à modesta estação, em torno da qual toros de todos os tamanhos espalhavam-se, esperando embarque. Fernão quedou-se longo tempo olhando. Continuava temendo a companhia de outrem. Hoje mais que ontem. Após o acontecido de véspera divisava em cada fisionomia sorrisos de mofa pela sua ingenuidade. Nunca ouvira falar em Porto Epitácio, mas pelo nome deduziu achar-se à beira de algum rio. Procurou-o com os olhos. Não divisando, resolveu encaminhar-se a passos lentos para o lado em que a mataria se avistava mais distante. Repentinamente, avistou-o – amplo- a perder de vista. Prateado, salpicado de pontos luminosos e de verdes ilhotas. Surpreso, Fernão pensou, de início, estar à beira-mar, depois achou a água tranquila demais. – Devia ser rio. Mas que rio! Buscou alguma reminiscência de seus passados estudos geográficos e não encontrou – De rios conhecia apenas o Tietê e o Paraíba. Ouvira falar no Amazonas, mas ficava muito distante...

Na literatura infanto-juvenil o sertão epitaciano também reinou no imaginário de muitas gerações de leitores. Na famosa coleção do escritor Francisco de Barros Jr., do início dos anos 1960 e publicada por sucessivos anos pela Edições Melhoramentos, Presidente Epitácio recebe a visita de três escoteiros que vão viver nas barrancas do rio incríveis histórias que não deixariam nada a dever às aventuras de Tintin, Tarzan ou do Fantasma. 

"Do lado de São Paulo, a majestosa floresta havia recuado da margem por muitas centenas de metros, abatida pelos tiradores de madeira e lenhadores. As derrubadas eram enormes e acompanhavam o curso do rio, onde, para facilidade de embarque das toras e da lenha, havia uma sucessão de rampas; em algumas estavam atracadas as grandes barcaças, rebocadas por possantes motores a gasolina. Era uma desolação. A floresta virgem era levada para as fornalhas da E. F. Sorocabana e seria reduzida a cinzas. Não se via uma roça de milho, algodão ou plantações de café que de certo modo compensassem a devastação. De espaço a espaço, choupanas miseráveis de pau-a-pique, cobertas de folhas de coqueiro, parecendo abandonadas. Os seus moradores estavam no âmago da floresta, lançando por terra os gigantes centenários e regozijavam-se quando uma perobeira ou jequitibá de trinta ou quarenta metros de alto ruía fragorosamente, deixando uma clareira. Dentro de poucos, de muito poucos anos, desapareceriam a floresta e desapareceriam os veados, os porcos do mato, as antas, os macacos, os macucos, jacus, jacutingas, enfim, todos os seus habitantes terrestres e alados, tal como já aconteceu na maior parte do nosso querido São Paulo."
 
Em certa ocasião, visitando a famosa Estância Boiadeira, em Anaurilândia - na companhia do José Feitosa- conheci a inesquecível sede dessa famosa fazenda de invernada, especialmente a sala de armas, onde existias muitos “armários”, no sentido literal da palavra. Curioso também foi descobrir ali, num celeiro, dezenas de guias de embarque de gado na travessia Porto XV-Tibiriçá, muitas delas assinadas pelo meu avô Maurício Xavier Duque. Ele sempre dizia que o grande interesse dos turistas pelo Mato Grosso eram as caças, devido a abundância de animais num período que não havia nenhum tipo de controle ou proibição.

Na minha infância conheci muitos caçadores. Eles eram vistos como pessoas ousadas e corajosas. Ao contrário de hoje, eram admirados por suas façanhas. Naquela época matar animais silvestres era normal, um hobby muito admirado, pois os caçadores exibiam em suas casas ricas coleções de armas, acessórios e também os restos mortais dos animais que eles abatiam impiedosamente em suas aventuras. A moda exótica daquela época mandava empalhar os bichos e exibi-los nas paredes ou nos cantos da sala de visitas. Aquelas cabeças de animais presas nas paredes, que normalmente a gente só vê em filmes antigos, era muito comuns nas casas onde residiam os caçadores ou então nos sítios e fazendas. Alguns fazendeiros tinham lembranças e fotografias de safaris realizados na África e na Austrália, como as que vi na sede da fazenda Santa Sofia, em Presidente Venceslau.
Em Tibiriçá a volta da caçadas era motivo de muita expectativa para os familiares e vizinhos dos caçadores. Perto de casa morava o Seu Oswaldo Valério, caçador muito conhecido na região e que atraía muitos de seus amigos. Toda aquela molecada de Tibiriçá se aglomerava ao redor das carrocerias para ver os animais mortos que eles traziam. Eram veados, antas, capivaras, catetos, pacas, onças, jacarés e tantos outros que não lembro mais. Só não esqueci dos olhos abertos dos animais maiores, estendidos sobre a lona manchada de sangue. Experimentei pedaços de carne de muitos deles, especialmente preparados. Achava esquisito o cheiro e sabor, tão forte eu confundia o paladar. Dizem que os caçadores são marcados pelo destino e sempre acontece algum tipo de tragédia em sua família, com pessoas que eles amam demais, como um sinal de que eles devem parar ou expiar as dores causadas os animais abatidos. Superstição ou não, todos os que eu conheci passaram por esse momentos terríveis de provação ou expiação. 
Quando afirmamos que a cidade de Presidente Epitácio é filha do espírito da antiga colonização ibérica e do impulso explorador sertanista vicentino não nos referimos apenas às ondas exploradoras mais recentes, resultantes da pressão econômica cafeeira e das ferrovias. A herança é muito mais antiga e remonta os tempos primitivos da Capitania e até da mentalidade cruzadista e aventureira da expansão mercantil e da época dos descobrimentos dos séculos XV e XVI:

“A colonização foi, antes de tudo, a aventura da conquista e ocupação do sertão. Para os colonizadores portugueses, as terras americanas significavam um imenso vazio a ser preenchido com seus interesses, concepções e valores. Um grande deserto, um desertão como as representavam. Daí a origem do nome sertão. Um sertão que, como o Mar Oceano, exercia atração e gerava medos. Medos de seres reais e imaginários, de animais e plantas fantásticos, dos índios considerados bárbaros e selvagens, dos caminhos e grotões. Medos que ainda hoje se apresentam em denominações que traduzem angústia, ameaça e dúvida: Turvo, Encruzilhada, Sumidouro, Brumado, Rio das Mortes. Atração provocada pelas riquezas do sertão: valiosas madeiras, plantas miraculosas, aves e animais desconhecidos e metais preciosos. Atração provocada pelo número incalculável de pagãos e de idólatras - os adoradores de ídolos que deveriam ser convertidos à fé cristã”.  América Portuguesa – História do Brasil -Projeto MultiRio.
Foi desse tempo longínquo que brotou a mentalidade colonizadora que ainda predominava na época da fundação do Porto Tibiriçá. E ainda predomina se observarmos a contínua movimentação migratória em direção ao Norte do país.
Na época de homens como Jorge Tibiriçá e do seu primo médico Francisco, do empresário Arthur Diederichsen, do Coronel Sanches, do Capitão Whitaker, do Coronel Paulino Carlos e do Major Cecílio, o sentido geográfico da colonização era o então enorme e desconhecido Mato Grosso, o principal símbolo do universo selvagem, sendo depois substituído mais recentemente pela Amazônia. Em outras palavras, a ideia de aventurar no sertão, de se embrenhar nas matas em busca do “Eldorado” nunca foi abandonada pelas gerações modernas e contemporâneas. O espírito ou psicologia bandeirante continua vivo. 
Havia também o espírito neocolonizador, dos visionários ou futuristas do capital industrial.  Para descrever esse perfil nada melhor do que essa descrição que o Capitão Whitaker fez de Arthur Diederichsen, um dos sócios da Companhia de Viação:

“Seria, portanto, de clamorosa injustiça que o historiador que escrever a historia do desenvolvimento do Estado de São Paulo deixasse de reservar, na galeria dos Paulistas ilustres, um lugar de destaque para este Paulista emprehendedor e tenaz, que foi, de facto, quem abriu este Sertão, e aqui, invertendo milhares de contos de reis, por largos annos manteve sozinho, e em estado prospero, este grande centro de ordem e trabalho que sempre foi, e ainda é, a Companhia de Viação São Paulo Matto Grosso”.
A interiorização da metrópole portuguesa (Entradas e Bandeiras) se perpetuou no comportamento de todos os que se dispunham a explorar novas possibilidades de negócios e prosperidade. E o sertão sempre representou um campo vasto e inesgotável dessa ambição natural e aventureira. Mais ainda, fazer o percurso da aventura colonial é tomar o rumo contrário do Oceano Atlântico em direção aos Andes e ao Pacífico. É o percurso de quem deixa tudo para trás, de quem não tem nada a perder, do tudo ou nada. Quem penetra no sertão de peito aberto entra num caminho sem volta e por isso deve antes queimar os seus navios, só restando a possibilidade de avançar no imenso horizonte do Sol Poente. 
Essa ideia de migração permanente ficou gravada durante séculos na mentalidade do imigrante europeu e foi sendo preservada através dos seus descendentes contemporâneos que, já radicados na América, migram no sentido do litoral para o interior. Mesmo os que parassem a sua marcha num determinado ponto do interior continuavam achando que o lugar que escolheram para ficar era o umbigo do mundo e que, tudo que estava além, mesmo que fossem somente alguns quilômetros, seria sempre o “fim de mundo” dos fidalgos europeus e também o “cafundó” dos resignados descendentes de africanos. Foi assim que, na mentalidade regional, Epitácio ganhou a fama de “fim de mundo” e o Mato Grosso tornou-se o “cafundó do Judas”. É o observador, cuja visão linear e rígida, vê somente o trajeto de uma linha que se interioriza em relação ao litoral e aos centros urbanos estabelecidos é a perspectiva quase sempre condicionada pela ideia e imagem de um lugar distante que ainda não existe, que não é estável, que não inspira confiança, sendo, portanto, inferior como referência em todos os aspectos.
Também contribuiu muito para a perpetuação desse preconceito, que absolutamente não atinge o aventureiro e o desbravador, por estar “depois”, de ser a “última” de todas as cidades, o fato de Epitácio estar no extremo Oeste de uma grande área que permaneceu milagrosamente isolada entre o fim de São Paulo e o começo de Mato Grosso. Reforçou também essa tal mentalidade, alimentando e nutrindo o imaginário da desconfiança para com o Poente, a agressividade extrativista madeireira e o estabelecimento das pastagens. Para os novos seguidores de Pizarro e do intrépido Raposo Tavares, colocando um pouco de lado a piedade cristã, a mata e seus habitantes selvagens, incluindo a humanidade indígena, representavam não uma ameaça, mas o obstáculo que mais cedo ou mais tarde teriam que ser removidos. Novamente a Cruz, a Espada e Fome seriam os principais estandartes da ocupação territorial. 
E finalmente a implantação dos trilhos férreos, que foram lançados sobre a terra ainda bruta, não apenas como meio de transporte, mas, sobretudo, como um símbolo de poder e riqueza, emblemas de progresso e avanço contra o mundo desconhecido. Epitácio permanecia no fim da linha e esta maravilha da tecnologia industrial era uma referência cultural para quem vai e para quem fica, para quem avança e para quem permanece, para quem precisar romper novos obstáculos e para quem precisa conservar o que já foi conquistado. 

A ferrovia era o limite entre a ousadia da necessidade e o reacionarismo dos estabelecidos. Quem não tem competência não se estabelece e se não há mais espaço onde paramos temos que ir adiante e nos estabelecermos em outros lugares, a qualquer preço. Ela funcionou durante muito tempo como o umbigo do mundo, uma a referência de onde se construíam as estações de chegada e de partida; e também o ponto de vista das pessoas sobre os acontecimentos ao seu redor, sobre o tempo presente, o tempo que passou e principalmente sobre o tempo futuro, o mundo ideal. Não foi à toa nem por coincidência, que as ferrovias brasileiras nasceram das mãos dos ingleses vitorianos, cujo império colonial partia de Londres penetrando nos mais inóspitos lugares do planeta. 

As locomotivas do capitalismo industrial fizeram nos séculos XIX e XX o mesmo papel das caravelas ibéricas nos século XV e XVI. A mesma visão eurocêntrica do antigo colonialismo luso-espanhol surgiu com mais força e vigor no neocolonialismo industrial. Este “ferrocentrismo”, semelhante ao antigo, no orgulho e na prepotência, se considerava o ponto central entre o começo e o fim do mundo. As estações e os trilhos tornaram-se o inevitavelmente o ego social e político da conquista do sertão, uma régua histórico-temporal que mensurava a qualidade e a modernidade progressiva dos lugares por onde passava e dos povoados que foram surgindo atrás das suas pegadas. 

Foi assim que, na gradação mensurada pela régua do olhar, imitada dos ares de superioridade da fidalguia ibérica e da aristocracia britânica, as estações de trem passaram a ser vistas não somente como unidades administrativas do transporte ferroviário, mas também como pontos de localização na logística de sentido puramente ideológico e imaginário. Foi assim também que muitas cidades do interior paulista, algumas hoje de grande porte urbanístico, tornaram-se, em suas respectivas fases de crescimento prestígio, o meio entre a grande Estação Júlio Prestes, na Capital, e o fim dos trilhos em Presidente Epitácio. As cidades que estavam antes ou depois – tomando como referência a Baixa, a Média e a Alta Sorocabana – desses pontos “ferrográficos”, passavam a ser vistas como gradações ou degradações da qualidade civilizatória, de progresso ou de atraso. Se o trem atrasa em seus horários do dia- a- dia, as cidades também atrasam na longa duração do seu tempo histórico. Se a ferrovia não tivesse perdido a sua importância econômica e tecnológica tornando-se lenta e obsoleta para os padrões logísticos atuais, Epitácio, ainda por muito tempo, estaria destinada a ser não somente o fim da linha e a porta de entrada do fim mundo, mas certamente o fim da picada. Mas nem sempre foi assim. 
 
O JAPÃO E A HUNGRIA EM EPITÁCIO

Durante muitas décadas Epitácio foi a representação geográfica de sonhos e esperanças de inúmeros migrantes e imigrantes que desembarcavam na estação por força do destino, em busca de terras e de um chão para ficar suas raízes.

Os primeiros em sua maioria vieram dos sertões da Bahia e Minas Gerais. Já a minoria era procedente de região do norte e nordeste e muitas famílias que não tiveram sorte nos municípios mais próximos da Capital paulista e do centro do estado. Entre os imigrantes encontramos, como em todas as cidades do interior, os descendentes de europeus, expulsos do velho continente pelas duas grandes guerras; os sírio-libaneses, que desembarcavam em Santos com o passaporte da Turquia, sendo por isso chamados e até hoje conhecidos como “turcos”, semelhantes aos nordestinos que eram rotulados de “baianos”. No Porto Tibiriçá havia a presença de argentinos, paraguaios e índios guaranis, por influência da navegação comercial platina, que mantinha grandes negócios na região, sobretudo a Companhia Matte Laranjeira. 

E finalmente os japoneses, cuja presença forte na agricultura, no comércio e nas profissões técnicas teve grande influência na formação econômica das cidades onde se instalaram. De todos povos estrangeiros estabelecidos no Brasil, apesar da marca de sucesso e prosperidade nos negócios, a comunidade japonesa foi talvez a que mais teve dificuldade de adaptação entre nós, não somente por causa das enormes diferenças de hábitos e costumes, mas também pela nossa estranheza espontânea ao seus traços fisionômicos, típicos das etnias amarelas, o que causava um certo espanto e curiosidade por parte dos brasileiros que nunca haviam convivido com essas culturas. A mesma reação tinham esses imigrantes com relação aos brasileiros e outros ocidentais, o que, de certa forma, gerou neles um isolamento étnico mais acentuado nos primeiros anos de convívio e que, pela força do tempo, foi perdendo a rigidez em forma de manifestações fraternas e a inevitável mistura de raças. É muito interessante lembrar que esse fenômeno da miscigenação, sempre visto com muito receio e preconceito pelas duas culturas, seria responsável pela volta ao Japão nos anos 1980 e 90 dos seus descendentes, muitos acompanhados de cônjuges acidentais e filhos brasileiros, para atender a grande demanda de mão-de-obra da indústria nipônica. Nessa época enfrentávamos uma enorme crise de empregos e falta de perspectivas, causando forte inquietação na sociedade brasileira durante o declínio do regime militar. Eram os decasséguis, que hoje ultrapassa a marca de 300 mil.  Muitos brasileiros descobririam com os próprios olhos a beleza e a força dos japoneses e os descendentes de japoneses fariam a mais extraordinária descoberta íntima, jamais imaginada pelos seus ancestrais: a verdade de que eles eram autênticos brasileiros. 

Em 2010 foram comemorados os 90 anos de fundação da Colônia Arpad Falva, marco da imigração húngara na região de Caiuá e Presidente Epitácio. Historicamente a maioria dos brasileiros possuem os pés ficados em três raízes: na primitiva Pindorama, lugar de sonho e de graças dos povos indígenas, os legítimos donos da terra; a segunda na África, de onde vieram os negros que, na condição escravos, construíram literalmente as bases econômicas da futura nação; e uma terceira na Europa, de onde vieram não somente os ideólogos da colonização, mas também as multidões de excluídos ora pelo sistema aristocrático mercantilista, ora pelos expurgos da nova sociedade industrial. São os imigrantes e materialmente deserdados de todas as épocas, todos em busca da utopia da felicidade. Trouxeram, sim, herança cultural e mentalidade do Velho Continente. Em Epitácio, como a maioria das cidades do interior paulista, temos todas as manifestações culturais dessa busca, acrescentando ainda aquelas que foram produto da grande desigualdade interna, cujas fileiras foram e ainda são engrossadas pelos retirantes nordestinos. 

Em 1920 o Império Austro-Húngaro já estava desmantelado pela nova ordem mundial imposta no Congresso de Versalhes. Dos povos eslavos que estavam sob a sua tutela, a Hungria talvez o que mais gozava de liberdade e reconhecimento dos seus valores de nação. Mas não havia húngaros somente na Hungria. Muitos estavam espalhados pelos territórios do Império e, com a reorganização do mapa europeu após a Grande Guerra (Tratado de Trianon), muitos deles ficaram sem pátria. Muitos outros, pelas próprias consequências da guerra, cansados da instabilidade e derrotados pela incerteza sobre futuro, decidiram buscar na América a tão sonhada utopia. A maioria dos imigrantes desse período era de origem camponesa, gente de hábitos simples e que vivia da exploração da agricultura e da pecuária. Mais tarde, antes e após a Segunda Guerra, os antigos súditos do Império Austro-Húngaro que vieram para o Brasil eram mais urbanos (comerciantes, artistas e burocratas) fugindo do nazismo e depois dos soviéticos. Para conhecer um pouco melhor a cultura e a paisagem húngaras sempre revejo o filme "Sunshine, o despertar de um século", do cineasta Stván Szabó, narrando com maestria e beleza incomparável a trajetória de três gerações de uma família judia naquele país misterioso e encantador. 

Mas, genericamente, o povo húngaro é conhecido pela sua astúcia - herdada da mistura racial com os hunos, daí os olhos ligeiramente puxados lembrando a raça mongol - e pela afinidade com o conhecimento e as artes.

Em nossa família, músicos, artistas plásticos e educadores têm marca reconhecida. Talvez o primeiro epitaciano a obter o título de doutorado acadêmico foi o engenheiro Carlos Szucs, neto do patriarca, pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde exerceu a docência desde os primeiros anos da sua formação. Aliás, a universidade é um espaço onde os descendentes de húngaros se adaptam muito bem. Tive três professores de sangue húngaro e com esse perfil intelectual: Antônio Rago, filósofo e músico, na PUC de São Paulo; a socióloga Caterina Koltai, também na PUC; e finalmente a minha orientadora no mestrado, Anna Maria Balogh, da Escola de Comunicação e Artes da USP. 

A Colônia Arpad Falva, como muitas outras que se instalaram na região, foram estabelecidas com essa intenção primordial de ter um chão e reinventar no Brasil as experiências das suas origens e costumes. Isso porque o Brasil possuía um diferencial que as demais áreas escolhidas pela imigração não tinham com tanta significação: o fator acolhimento. Aqui os imigrantes jamais foram vistos como intrusos ou uma ameaça ao nosso modo de vida. As exceções dessa regra espontânea quase sempre se perderam nos seus objetivos e por isso mesmo caíram no esquecimento. 

Certa vez conversamos em São Paulo com um Cônsul da Hungria e ele nos disse que a marca principal dos húngaros que viviam fora do país era exatamente a grande capacidade de adaptação e integração com as culturas locais. Antes desse comentário ele nos perguntara se éramos descendentes de colonos e não teve nenhum estranhamento ao perceber que a nossa pele tinha um ingrediente africano e também outros da nossa intensa miscigenação racial. Embora não tendo no sobrenome a identificação húngara, somos netos de Verônica Szucs, imigrante húngara da Colônia Arpade e que, na mesma década de 1920 se casou com Carlos dos Santos, autêntico exemplar afro-brasileiro, descendente de escravos da região do Vale do Paraíba. Essa ousadia miscigenatória seria repetida numa segunda geração da família quando no início dos anos 1970 a nossa prima Sônia Szucs se atreveu casar-se com o então jovem operário Deusdete Leal. Soninha e Negão, assim como dona Vera e Carlos dos Santos nos anos 20, viveram nos anos 70 um dos mais conhecidos poemas de amor e quebra de preconceito da história social epitaciana. 

Nossos bisavós eram Marcus Szucs (músico e dono de alambique) e sua esposa Maria Szucs. Esta não falava uma única palavra em português, mas conversava intensamente com os netos através de gestos e palavras estranhas que sempre associávamos com alguma coisa que estava acontecendo naqueles instantes.

Nunca conseguimos aprender o idioma e isso talvez tenha sido uma das causas do desaparecimento da colônia. Ao contrário de nós, a maioria dos húngaros aprendeu o português e por isso se misturaram com os brasileiros. Ainda assim nos restaram algumas lembranças, principalmente os hábitos práticos como a culinária, o pendor para as artes e o gosto pelas coisas do intelecto. Cada uma dessas famílias de descendentes, como nós, possuem suas memórias e também muitos documentos comprovando a autenticidade de suas raízes. 

Certamente os húngaros que vieram para o Brasil e para a Colônia Arpad nunca mais voltaram a ser aqueles que um dia deixaram o território europeu. E os brasileiros que eles aqui encontraram e que, de alguma forma com eles se envolveram, também nunca mais foram os mesmos.